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sábado, 19 de março de 2016

Travessia em busca de um Sonho - Parte 4

(As marcas de um passado sangrento renegaram ao esquecimento a sofrida cidade de Taquaruçu, existindo hoje em seu lugar Curitibanos, nome dado em memória de uma fantasiosa invasão de paranaenses nas fronteiras de Santa Catarina.)

Em 1912, o monge José Maria reúne-se com vários seguidores na pequena cidade de Taquaruçu para celebrar a festa do Senhor Bom Jesus. 

O grupo resolve ficar por lá depois da cerimônia. Incomodado, o coronel da região ameaça usar de violência para dispersar os caboclos. 

Eles deixam o vilarejo e dirigem-se para Irani, na região fronteiriça entre o Paraná e Santa Catarina, onde se instalam. 

(Forças militares de Santa Catarina, Paraná e do Governo Federal que conquistaram a cidadezinha de Taquaruçu, atual Curitibanos-SC, durante a guerra do Contestado.)

O governo paranaense interpreta o episódio como uma invasão catarinense da região em litígio e mandam uma tropa reprimir o grupo.

José Maria morre no combate...

Mas os sertanejos passam a crer na sua volta. Alguns autores dizem que, quando foi enterrado, cobriram o corpo apenas com algumas tábuas, para facilitar a ressurreição. 

Orientados por visões em que seu líder se manifestava, os seguidores estabelecem-se de novo em Taquaruçu. Os ataques do governo são repelidos e outros núcleos instalam-se pela região. 

(Túmulo do Monge José Maria, em Irani-SC, local do primeiro combate da guerra.)

(Local de peregrinação, orações e visitações anuais, o cemitério do Contestado, em Irani-SC é parada obrigatória para quem visita Santa Catarina e estuda sua história. Acima, sr. Odair Toledo, dono das terras e administrador do cemitério.)

(Hoje, a calma e um melancólico silêncio reinam no solo onde muitos morreram defendendo sua simples e ignorante fé...  Ao fundo, meu irmão Fernando voltando de um pequeno riacho que passa margeando o cemitério. Visita em Nov/2012.)

Trabalhadores que ficaram desempregados com o fim da construção da ferrovia também se juntam ao movimento. 

À espera do retorno do monge e da instauração de uma monarquia celestial, alguns redutos vivem em um estado de festa permanente, garantido por saques às fazendas da região.

Em 1916, o grupo tem o domínio de uma área de 28 mil quilômetros. Para acabar de vez com a revolta, o governo mobilizou 75% do contingente do Exército. 

Mais um sonho terminava de maneira sangrenta...


Messianismo Hoje e Agora

A repressão violenta sofrida em Canudos e no Contestado não impediu o nascimento, tempos depois, de outros movimentos semelhantes.

(É... eu sei... parece o mago Gandalf, não é?! Mas, não, é apenas um brasileiro que recebeu  visões e a missão de fundar uma nova cidade que mudaria o Brasil. Assista a um breve documentário sobre a vida de um professor que não soube desenvolver suas faculdades mediúnicas...)

Na década de 40, apareceu na cidade do Rio de Janeiro um novo líder espiritual, o Mestre Yokaanam, que tem visões sobre o surgimento de uma nova civilização no Planalto Central. Ele se muda para uma região próxima de Brasília com seus seguidores e funda a Cidade Eclética, uma comunidade religiosa ligada ao Espiritismo e permeável às outras religiões - o que explica o nome do vilarejo. 

História similar teve o Vale do Amanhecer, idealizado por tia Neiva. 

(Esta senhora de aparência estranha é Neiva Chaves Zelaya, tia Neiva, médium e clarividente. Fez uma longa caminhada para compreender sua mediunidade. Em 1969 ela funda o Vale do Amanhecer, um complexo com dormitórios e até comércio onde buscadores por cura física e espiritual se hospedam e moram. Hoje mais de 100 mil médiuns residem nesta cidade e 650 templos com a doutrina do Amanhecer estão espalhados por todo o Brasil.)

(O canal pago internacional Discovery se interessou por essa comunidade e em 2011 veicula um documentário intitulado como Mundos Extremos.) 

Também originado em meados do século 20, o movimento resultou na criação de uma cidade próxima a Brasília, identificada com o sincretismo e o esoterismo. 

Os dois grupos retomam o messianismo, garantido pela capacidade de adaptação, pelo exercício consciente de tolerância e pela estrutura eclética. 

Além disso, ambos souberam fazer a passagem do movimento messiânico para uma comunidade de Nova Era, sobretudo desde a morte de seus líderes.

Há, contudo, exceções. 

(Falamos sobre esse movimento no início de nossas postagens aqui, a Irmã Tereza é a única e solitária remanescente deste movimento desastroso sobre um dilúvio que destruiria o mundo em 13 de maio de 1980.)

Na década de 70, surgiram os Borboletas Azuis em Campina Grande, na Paraíba. O grupo era liderado pelo sertanejo Roldão Mangueira, que diz ter visões do padre Cícero. 

Os adeptos promoviam sessões espíritas onde baixavam espíritos de santos e padres, todos católicos. O movimento tinha o objetivo de batizar todos os que morreram pagãos e de revitalizar o Catolicismo. 

Surgiu então a crença de que o mundo acabaria em um dilúvio em 13 de maio de 1980. Como isso não ocorreu, os seguidores se dispersaram.

(Pode não parecer hoje, mas esse cara aí, seduziu para suas fileiras mais de 918 suicidas. Jim Jones fomentado pelo medo crescente da Guerra Fria e a Guerra do Vietnã, o fim do mundo parecia inevitável. Por que esperar, vai que Deus estava com seu relógio atrasado, vamos até Ele! - Metodista, usuário de anfetaminas e aliciador de membros de sua seita, um homem perigoso e confuso.)

(Na década de 80 Chico Anysio, um de nossos únicos e maiores comediantes, não podia deixar uma figura dessas passar em branco... Satirizou e, fazendo a gente rir, também fez a gente refletir...)

(Assista por este link a reportagem da Rede Globo feita para o programa Fantástico em 28 de novembro de 1978, sobre este traumatizante acontecimento da espiritualidade mundial.)

Fora do Brasil, outros movimentos ganharam destaque por terminar de forma trágica. Em 1978, cerca de 900 seguidores da seita Templo do Povo promoveram um suicídio coletivo na colônia agrícola em que viviam, na Guiana, liderados pelo pastor Jim Jones. 

Em 1993, os adeptos do Ramo Davidiano, um movimento adventista americano, foram cercados pelo FBI em Waco, no Texas. Mas de 80 pessoas morreram em um incêndio causado pela ação precipitada dos agentes federais. 

(Este bonito e promissor adolescente de 14 anos, David Koresh, seria anos mais tarde o responsável por um evento que pararia a mídia mundial em 28 de fevereiro de 1993.)


(O jovem teria mais futuro se tivesse investido em sua carreira musical, mas sua fé levou-o a acreditar que era o último profeta de uma divisão teológica dos Adventistas do Sétimo Dia chamada de Ramo Davidiano, que acreditavam que a vinda do Juízo Final estava próxima. Assediado sexualmente na adolescência por uma profetiza de 65 anos e, participante de um conturbado núcleo familiar, foi criado pela avó...)


(...e tudo culmina em Waco, Texas, quando a Guarda Nacional do Estado do Texas, juntamente com o FBI, responde a uma denúncia anônima de que no local se reunia centenas de pessoas, usuárias de drogas e que seu líder estuprava crianças e adolescentes. Muitos morreram queimados ou se suicidaram para não serem presos. David Koresh foi preso e condenado a prisão perpétua respondendo por homicídio culposo, porte e tráfego de drogas, abuso sexual e intelectual e invasão e posse indevida de território americano.)

Em 1997,  39 membros da seita Heaven's Gate promoveram um suicídio coletivo nos Estados Unidos, acreditando que a passagem do cometa Hale-Bopp era  sinal para que deixassem seus corpos e fossem levados por uma nave espacial.

Há um imaginário muito mais urbano e tecnológico, hoje em dia, sobre o que seja esse neomessianismo. A presença, hoje em dia, de doutrinas envolvendo alienígenas e conspirações de segredos governamentais, tudo isso, fomenta a fantasia de muitas pessoas podendo prejudicar seu próximo em busca de respostas cotidianas para o sofrimento e frustração. 

(O primeiro caso de uma transição que a Teologia denomina de Neomessianismo: O paraíso está entre os alienígenas...! No estudo das religiões esse fenômeno é chamado de Religião OVNI. Seu primeiro representante Marshal Applewhite.)


(Mas o culpado é esse carinha aí! Hale Bopp, incendiou o céu e a cabeça de muita gente em 1995. Para a NASA ele é classificado como um dos Grandes Cometas de nosso sistema solar. Visível no céu a cada 20 anos, fica aqui, perturbando todo mundo por 18 meses brilhando e fazendo peripécias no céu levando todos a acreditarem que o mundo vai acabar ou que é algum tipo de espaço nave... Que menino feio...!)


(Marshall dizia-se a reencarnação de Jesus, e muita gente com grana acreditou nisso! Eles não se denominavam membros, mas sim, tripulantes dessa seita. Os Applewhite ou Os Dois, como se denominavam, recebiam mensagens de alienígenas, mas o chato é que só eles falavam com os caras lá de cima...)


(Se você foi um jovem antenado da década de 90 com certeza acessou por curiosidade esse site do Haven's Gate, óbvio, hoje banido da internet, só prá saber o que os doidos falavam...)

É necessário que cada um de nós façamos uma caminhada espiritual, afinal somos de fato uma união de várias partes que não é só corpo ou emoções. 

Mas essa caminhada não pode levar a convencer ninguém sobre o que cada um deve fazer ou ser... A espiritualidade é uma busca solitária e individual, respeitando o tempo e a maturidade de cada um. E, principalmente, não existe nada complexo, encoberto ou difícil demais no que tange a Deus. A fé deve ser algo simples, acessível e que leve seu buscador à tolerância, flexibilidade e adaptabilidade, ou seja, que o faça viver em harmonia e paz no seu meio ambiente.

Qualquer ideologia que fuja disso, desconfie! 


(A mais nova cara de Jesus, dentre outras faces assumidas por ele, é esse homem aí: Inri Cristo, escritor e líder religioso da Suprema Ordem Universal da Santíssima Trindade. Felizmente, em sua pequena mansão ele é servido por várias cordeirinhas, jovens meninas que servem ao líder acreditando ser o Cristo.)

"As coisas encobertas pertencem ao SENHOR nosso Deus; porém as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre..."

"...porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas.

"...para buscarem a Deus se, porventura, tateando, o possam achar, bem que não está longe de cada um de nós..."
Deuteronômio 29:29; Romanos 1:19-20; Atos 17:27



Fim.:.



Referências Bibliográficas

Guerra do Fim do Mundo, de Mario Vargas Llosa, ed. Companhia das Letras, 1999.

Canudos e o Povo da Terra, de Marco Antonio Villa, ed. Ática, 1995.

Dicionário de Messianismo e Milenarismo, de Henri Desroche, ed. Umesp, 2000.

Messianismo e Conflito Social, de Maurício Vinhas de Queiroz, ed. Civilização Brasileira, 1966.

O Messianismo no Brasil e no Mundo, de Maria Isaura Pereira de Queiroz, ed. Dominus Editora/Edups, 1965.

Os Sertões, de Euclides da Cunha, ed. Record, 2000.


Filmes

Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, 1964

Guerra de Canudos, de Sérgio Rezende, 1997.


sábado, 5 de março de 2016

Travessia em busca de um Sonho - Parte 3

(A derrubada da Monarquia, que de imediato foi sem derramamento de sangue, terminou por provocar ações anti-republicanas e aversões contra o Novo Regime que trazia para o cenário brasileiro muitas ideologias iluministas europeias. Acima, cena do filme Guerra de Canudos.)

Passa o tempo, vem a República e Conselheiro coloca-se contra o novo regime.

Para ele, trata-se de uma subversão à ordem estabelecida por Deus. Deixando de lado a vida de andarilho, o peregrino decide fixar-se, com seus seguidores, no pequeno arraial de Canudos, cujo nome muda para Belo Monte. 

Antônio Conselheiro quer preparar um lugar que garanta a vida na Terra, sem se esquecer de que isso é provisório, e que leva ao céu. A vida que os sertanejos tinham lá era muito boa, muito melhor do que antes.

(Belo Monte retratado pelo fotógrafo Flávio de Barros em outubro de 1897.)

O povoado cresce rapidamente. Além do trabalho comunitário, os moradores do arraial aprendem com as lições religiosas de seu líder. Quando Conselheiro falava de Deus, não acentuava o caráter aterrorizante e vingativo presente nos sermões que o povo há tanto tempo ouvia. 

Mostrava-o como um Ser misericordioso, sempre disposto a perdoar.

Se a missão do rei capuchinho fracassa em 1895, seu relatório indica a existência de um Estado dentro do estado e põe as autoridades de prontidão. 

No ano seguinte, os fiéis compram madeira em Juazeiro para a igreja nova de Canudos.


(Conselheiro foi perseguido não apenas por reunir um povo sem esperança do Sertão, mas também por apresentar uma teologia nada convencional no qual retratava um Deus que não apenas perdoava, mas que não condenava: A seca do sertão não era algum tipo de pecado e danação divina...)


(O estopim da Guerra de Canudos foi mesquinho e abominável, o qual o personagem principal foi a construção de uma Igreja para que pobres sertanistas pudessem fazer suas orações no final de seu dia de trabalho.)

O material demora a ser entregue e corre o boato que jagunços vão invadir a cidade para pegá-lo à força. A notícia serve como pretexto para dar início à guerra, imortalizada no clássico Os Sertões, de Euclides da Cunha. 

A primeira expedição, com 120 homens, fracassa. 

O mesmo ocorre com a segunda, com cerca de 625 soldados, e com a terceira, que reuniu um efetivo de mais de 1,3 mil pessoas.


(Cena final do filme Guerra de Canudos de 1996, direção de Sérgio Rezende e protagonistas como José Wilker, Cláudia Abreu, Paulo Betti e Marieta Severo. Filme orçado em 6 milhões de dólares e 4 anos para gravação.)

Na última, em 1897, mais de 10 mil combatentes atacaram em duas frentes, durante quatro meses. Do ataque intenso, restou a ruína de 5,2 mil casas. Antônio Conselheiro morreu pouco antes do fim da guerra, não se sabe se ferido por uma granada.

Muitos dos vencidos acabaram cruelmente degolados. 

Em 1969, as águas do açude de Cocorobó cobriram o que restou de Belo Monte. Não apagaram, contudo, uma história de fé.

Fé Messiânica...

(Com a baixa das águas do Açude de Cocorobó a velha Canudos reaparece...)

(Chegando ao Açude de Cocorobó, não tem como não sentir algum tipo de silêncio e tristeza impregnados no local... Viagem de Abril de 2015.)


Contestado sob o comando de um Monge Místico

Em 1916, uma região fronteiriça de 48 mil quilômetros quadrados disputada pelo Paraná e Santa Catarina viveu seu apocalipse. Estima-se que entre 6 mil e 10 mil pessoas tenham morrido após a série de combates contra as tropas republicanas. 

Nem mesmo no período mais crítico do conflito, o monge José Maria surgiu nos céus, ao lado do exército encantado de São Sebastião, como esperavam seus mais de 20 mil seguidores. 

(Este senhor idoso e inofensivo, curandeiro, apelidado por monge por seu jeito reservado e pobre de viver, foi o motivo para uma guerra...)

As mudanças radicais que atingiram aquela população despertaram o desejo por uma salvação divina, distante da vida em uma sociedade arruinada. 

A história do Contestado começa em meados do século 1.

Por volta de 1840, acredita-se que tenha passado pela região um "monge" chamado João Maria. 

Mas "monge", nesse caso, não significa o religioso que vive em um mosteiro. Trata-se de um termo aplicado a andarilhos comuns na região sul do Brasil que benziam, batizavam e faziam curas com ervas medicinais - muito parecidos com os "beatos" do Nordeste.

(A Guerra do Contestado foi um conflito armado que ocorreu na Região Sul do Brasil entre outubro de 1912 e agosto de 1916.)

No fim do século 19, um segundo monge João Maria surge na área, muitos anos depois do desaparecimento do primeiro. Na memória popular, entretanto, ambos acabaram confundindo-se.

Passa algum tempo e, no século 20, começa a peregrinar pela região o monge José Maria, que se diz irmão do segundo João Maria. 

Suas andanças coincidem com a modernização de toda aquela área. Muitos posseiros são expulsos de suas terras por causa da construção de uma estrada de ferro que liga São Paulo ao rio Grande do Sul. 

Também há problemas com a instalação de uma madeireira multinacional do mesmo grupo da ferrovia. 

(A implantação de estradas de ferro na região trazem o desenvolvimento e a expulsão do povo local. Injustiça, intolerância e ganância são, como sempre, a matéria prima inflamável para qualquer conflito.)

Suas serrarias desabrigam mais gente e acabam com as pequenas madeireiras da área.

Além disso, a chegada de grandes contingentes de imigrantes - mais acostumados às novas rotinas de trabalho - contribui para agravar a crise social. 


Continua...



sábado, 13 de fevereiro de 2016

Travessia em busca de um Sonho - Parte 2

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(Habitantes de Canudos, sobreviventes dos últimos dias do conflito.)

Na época de Canudos e do Contestado, a Bíblia não era acessível às populações que viviam na zona rural. A área contava com poucos sacerdotes e quase não havia missas. 

Por esse motivo, a prática religiosa não se concentrava nos sacramentos, mas na devoção aos santos - estabelecida numa relação direta desses com os fiéis - e nas rezas. 

Tratava-se de gente humilde, abandonada à própria sorte, para a qual concorria o desejo do milagre e do maravilhoso, o socorro do sobrenatural.

Os líderes messiânicos vão ao encontro desse anseio. 

(Quatro minutos para relembrarmos sobre o assunto que estamos abordando nestas postagens.)

Ainda que a tragédia marque o fim de grande parte desses movimentos, aqueles que pereceram na luta não se arrependeram nem no último momento. 

Com a morte, achavam que atingiriam seus sonhos de outra maneira e estariam salvos de um mundo em decadência. Um caminho que, ainda hoje, muitos podem vir a seguir. 


Canudos - O paraíso que começa no sertão

O frei capuchinho João Evangelista Marciano chega ao arraial de Belo Monte em 1895. Em missão oficial, vai até o povoado, antes chamado de Canudos, a pedido do governador da Bahia, para tentar dispersar a população. 

O religioso fracassa, mas registra a visita num relatório: 

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(Frei João Evangelista Marciano, o segundo frei com barba, sentado da esquerda para direita.)

"Os aliciadores da seita ocupam-se em persuadir o povo de que todo aquele que quiser se salvar precisa vir para os Canudos, porque nos outros lugares tudo está contaminado e perdido pela República. Ali, porém, nem é preciso trabalhar. É a terra da promissão, onde corre um rio de leite e são de cuscuz de milho os barrancos".

O imaginário daqueles que se juntaram no local está tomado pela esperança e pela fé. 

Há uma recriação da terra prometida dos judeus, que se associa com mitos indígenas de fartura daquela região. Muitos fogem do trabalho nas fazendas da região e mudam-se para Belo Monte. 

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(Vila de Belo Monte, como vista e representada pelo pintor e fotógrafo Flávio de Barros em outubro de 1897, único que presenciou o conflito sem estar diretamente ligado à política. Morou nas imediações de 26 de Setembro a 12 de Outubro de 1897. Contudo, muitas de suas fotos foram expurgadas, sendo somente divulgadas recentemente no Museu da República-RJ e no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia desde 2002.)

Lá, encontram terra para plantar e vender de forma livre, sem os impostos da República. Passam a trabalhar de modo comunitário no único local que consideram livre da ruína do mundo. Obra de Antônio Vicente Mendes Maciel, o célebre Antônio Conselheiro. 

O líder do movimento de Canudos nasceu em Quixeramobim, no Ceará, em 1830. Sabe-se que perdeu a mãe ainda na infância. 

Antônio teria aprendido latim com o avô e estudado português, aritmética, geografia e francês, o que deu a ele a fama de garoto aplicado e religioso na sua cidade natal. 

A morte do pai obrigou-o a tomar conta do comércio que pertencia à família. 

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(Antonio não aguenta o drama da infidelidade da mulher e a dificuldade em manter rentável um comércio. Decide abandonar tudo e foge para o deserto do Sertão Nordestino. Ali, algo lhe acontece e sente-se chamado por Deus para uma missão.)

Antônio casa-se, abandona o comércio, separa-se da mulher ao descobrir uma infidelidade e retoma a vida de negociante.

Mas, em 1871, alguns dos bens de Antônio são penhorados por causa de uma dívida não paga. 

Naquela década, ele deixa de vez o comércio e passa a peregrinar pelo sertão como beato. 

"Nunca mais pude esquecer aquela presença. Era forte como um touro, os cabelos negros e lisos lhe caíam nos ombros, os olhos pareciam encantados, de tanto fogo, dentro de uma batina de azulão, os pés metidos numa alpercata de currulepe, chapéu de palha na cabeça. Era manso de palavra e bom de coração. Só aconselhava para o bem"
Depoimento de Vilanova, sobrevivente de Canudos, registrado em 1962.

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(Única foto conhecida de Antonio Conselheiro, tirada por Flávio de Barros em 1897.)

A passagem narra seu encontro quando menino com o beato, em 1873, numa fazenda cearense. 

Na ocasião, Conselheiro declara que tinha uma promessa a cumprir: erguer 25 igrejas, nenhuma delas no Ceará. 

Em 1874, um jornal de Sergipe menciona a passagem de um certo Antônio dos Mares, acompanhado por um "povo fanático" tanto pelo Estado como pela Bahia. 

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(Até em São Paulo, não se falava de outra coisa: Um padre pobre que arrebanhava os nordestinos...)

"Anda no caráter de missionário, pregoando e ensinando a doutrina de Jesus Cristo."
Informa a reportagem.

As peregrinações começam a preocupar as autoridades e a Igreja.

Em 1876, Conselheiro é preso em Itapicuru, na Bahia, e enviado para o Ceará, sob falsa acusação de homicídio. 

Acaba libertado meses depois e retoma suas andanças...


Continua...


sábado, 7 de novembro de 2015

Travessia em busca de um Sonho - Parte 1

(Vamos fazer uma retrospectiva teológica da Guerra de Canudos e do Contestado, me acompanhem nas próximas matérias...)

Movidos pelo ideal de uma vida distante de um mundo em ruínas, os movimentos de Canudos e do Contestado marcaram a história do Brasil.

O mundo parece não fazer mais sentido...

O cotidiano começa a mudar de maneira radical, tornando-se opressivo. Difícil entender o que está ocorrendo ainda que o discurso oficial das autoridades tente explicar.

(Vídeo educativo do Fundação Joaquim Nabuco e Ministério da Cultura.)

Há algo muito errado uma ameaça à serenidade de pessoas acostumadas àquela mesma rotina desde o nascimento. Mas o medo dá lugar à esperança quando, subitamente, um líder com grande carisma e eloquência surge no cenário, mencionando a Bíblia e fazendo revelações.

Mais do que isso, mostrando o caminho para superar tanto sofrimento. O discurso atrai seguidores, prontos para defender sua verdade até a morte. 

(Chegada de Antônio Conselheiro à Belo Monte e o início de uma sociedade alternativa onde fé e política fizeram uma mistura explosiva e malsucedida.)

(Mas antes disso, ele era conhecido como Antonio Vicente Mendes Maciel, funcionário público, professor, advogado prático, casado e respeitado. Quando descobriu a traição de sua esposa com um sargento, desiludido, larga-a e vai peregrinar no sertão baiano. Passeia por Sergipe e todo Norte baiano vislumbrando a fome e a pobreza do povo nordestino. Nesta jornada uma espécie de mudança espiritual lhe acontece, e sente-se chamado a desafiar as decisões sociais da nova República.) 

Afinal, serão os únicos capazes de se salvar. Está prestes a nascer um movimento messiânico ou milenarista. 

No fim do século 19, Antônio Conselheiro estabeleceu-se com seus adeptos em Canudos, na Bahia, mudou o nome do arraial para Belo Monte e transformou o local na terra prometida. 

(Canudos na Bahia e a revolta do Contestado em Santa Catarina, não foram os únicos movimentos messiânicos do Brasil. Houve o movimento As Borboletas Azuis promovida pelo empresário Roldão Mangueira de Figueiredo, na Paraíba em 1977, pregava um dilúvio que ocorreria em 1980: Uma enorme bola de fogo cruzará o céu, o Sol girará por três vezes consecutivas, um ensurdecedor trovão ecoará por toda a Serra da Borborema. Em seguida choverá ininterruptamente por 120 dias, o que não aconteceu... O movimento acabou após aquele ano.)

(O movimento messiânico Cadeirão de Santa Cruz do Deserto, 1921, consistia na igualdade da comunidade. Ocorrida na Paraíba e liderada por José Lourenço Gomes da Silva, chamado de Beato. 

(Jacobina Mentz Maurer, líder religiosa em Sarapiranga no Rio Grande do Sul participou da Revolta dos Muckers (que quer dizer "Falsos Santos") em 1873-1874 com seus adeptos. Filha de pais alemães participantes do espiritismo europeu, fez alguns atos médicos interpretados como milagres pelos brasileiros. Os adeptos sobreviventes desta revolta ajudaram no movimento de Canudos.)

(João Maria, o Monge da Lapa, liderou o movimento conhecido como Monges do Pinheirinho em 1902. Parecida com a dos Muckers, os adeptos eram imigrantes italianos sofrendo com as represálias e discriminações dos agricultores brasileiros.)  
 
(Movimento dos Monges Barbudos ocorrido em Sobradinho, no Rio Grande do Sul, entre os anos de 1935 a 1938. A pobreza era extrema no sul, a cura para doenças só vinha por meio da utilização de ervas e conhecimentos indígenas. Quem praticasse esse tipo de cura era tido como pagão e não-cristão. Assim, acima, os seguidores foram presos e a seita banida.

Como vimos, não existe messianismo sem a participação de um padrão de acontecimentos: Política caótica, pobreza e nenhuma administração pública. Uma pessoa sensibilizada se levanta para organizar o conflito e é recebida como um Messias ou Reformador. 
Sua pregação é repleta de críticas aos líderes públicos e a perseguição é inevitável. 
O banimento ou a morte é o fim comum de todo movimento messiânico.)   

O lugar passou a ser visto como uma ameaça pelo governo, que destruiu o sonho de mais de 15 mil habitantes de modo sangrento.

Anos depois, no início do século 20, mais de 20 mil pessoas aguardavam a ressurreição de seu líder, o monge José Maria, em redutos localizados em uma fronteiriça disputada pelo Paraná e Santa Catarina. 

O Contestado também terminou de maneira trágica depois de confrontos com o Exército.  

Promessa de um Paraíso

As guerras de Canudos e do Contestado são vistas como os exemplos mais importantes de movimentos messiânicos no Brasil.

Para a sociologia, a principal característica de insurreições como essas é a existência de um figura carismática.

Esse líder é reconhecido pelo grupo como alguém especial, capaz de conduzi-lo a uma nova ordem - não importa se ele se assume como o Messias há muito esperado ou se promete o paraíso terrestre. 

(Em Um Messias Indeciso, Raul Seixas canta o caminho confuso, indeterminado e turbulento de um homem que sente ser chamado para uma missão espiritual e política.)

Alguns estudiosos também costumam classificar esses levantes segundo dois conceitos mais específicos: messianismo, que tem como base a crença na vinda de um Salvador, e milenarismo, quando se prevê uma catástrofe seguida por um reino de felicidade de mil anos. 

Porém, nem sempre é possível encaixar um movimento como Canudos, por exemplo, em uma das definições - Antônio Conselheiro não se proclamava o Escolhido ou prometia um milênio de paz e fartura. 

Melhor é denominá-los de movimentos religiosos de protesto social.

(Mas o que seria um messias de fato? É um conceito judaico da vinda de um homem que revitalizaria a nação e a religiosidade judaica, já que Estado e têm a mesma instância nesta cultura. Mas quando contemporizamos  esse conceito, ele se refere a um homem comum, sem estudo, que foi chamado através de algum sinal divino: Um sonho, uma voz, uma visão; seguindo indicações esporádicas enviadas por seres, que dependendo da orientação religiosa podem ser: anjos, avatares, espíritos, fadas. Entre os messias do tempo de Jesus surgiram outros autodenominando-se Messias:  Menahem Ben Judah; Bar Kochba; Moisés de Creta; Isḥaḳ ben Ya'ḳub Obadiah Abu 'Isa al-Isfahani, Yudghan; Seneno,  o Sírio; David Alroy... Além dos que surgiram na Pérsia, no Iêmen, Espanha e Itália, todos estes contemporâneos de Jesus.)

Tudo começa com uma grande crise, que atinge uma população acostumada a uma vida tradicional. 

A ordem anterior é considerada como estabelecida por Deus. Então, com as transformações, esse mundo sofre um abalo. 

No caso de Canudos, duas mudanças principais causadas pela proclamação da República atingiram em cheio os sertanejos: foram criados novos impostos e a Igreja separou-se do Estado. 

No Contestado, entre fatores que originariam o drama estão a modernização causada pela chegada da estrada de ferro e as rotinas de trabalho impostas por um madeireira multinacional. 

(Hoje as revoluções teológicas e messiânicas são mais organizadas e adentraram a política dos homens. Então, você verá deputados, vereadores e senadores crentes em sua visão religiosa querendo mudar o mundo... E conseguem... pelo menos fazer algumas confusões...)

A situação de miséria na qual viviam as populações que aderiram a esses ou a outros movimentos, porém, não pode ser vista como estopim. 

A crise material sozinha não gera isso...

O povo estava acostumado a viver em situações de pobreza. Mesmo fenômenos naturais trágicos, como a seca, eram interpretados como parte da ordem natural das coisas.

Na concepção messiânica ou milenarista, a ruína vem por mãos humanas e provoca a desintegração de um estilo de vida tradicional. 



(Três momentos grandiosos de um messias dentro da Câmara dos Deputados.)

Daí, há uma busca pela explicação para tanta desgraça. 

A religião, por sua capacidade de transcender o cotidiano, acaba por fazer essa crítica. 

Como o povo simples vive o desmoronamento do mundo conhecido sem saber traduzir isso em palavras, quem consegue falar essa linguagem religiosa atrai adeptos e transforma-se em líder. 

Essa variação dos cultos oficiais da Igreja Católica pode ser resumida na frase:

"Muita reza, pouca missa,
 Muito santo, pouco padre".



Continua...

                 


Aranel Ithil Dior. Tecnologia do Blogger.

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