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sábado, 9 de maio de 2015

Deus, o Grande Mistério do Ser Humano - Parte 7

(Quem estuda Teologia já conhece os elementos acima: A mulher, a coruja, a Lua, a noite, as estrelas, as florestas, as cachoeiras, o azul... Tudo isso são símbolos da Deusa, a Mãe da natureza, eternizados nas muitas mitologias dos povos antigos espalhados por todo o mundo em épocas diferentes.)

Apesar de a priori, o Deus monoteísta não ter gênero, acabou associado ao masculino: pai, senhor dos exércitos, provedor...

Mas nem sempre foi assim...

(Representações da Deusa-Mãe do período Neolítico.)

Nos primórdios da humanidade, o culto dominante era prestado a uma divindade feminina. A chamada Grande Deusa foi figura recorrente nas primitivas sociedades agrárias, o período neolítico, mas há indícios de que já estava presente desde o paleolítico.

(Esta pintura rupestre do paleolítico mostra uma cena de um pênis ereto, o que nada tem a ver com a sexualidade em si, já que imagens como estas representavam a fertilidade de uma nação e, portanto, uma força ativa. Essas pinturas eram comuns em cavernas cerimoniais onde Casamentos Sagrados eram realizados entre sacerdotisas e reis.)

(A Vênus de Willendorf, uma estátua com pouco mais de 11 cm, do período paleolítico de 2.500 a.C. descoberta na Áustria, mostra-se nua e com as partes de seu corpo exagerados. A sexualidade do homem primitivo era bem mais descomplicada no passado, já que a procriação e a fertilidade era uma dádiva e não um pecado.)

A Deusa era relacionada à terra, que gera, alimenta e cria. Nas representações, seu corpo simbolizava o universo.

(Deusa mãe de 6.700 a.C. encontrada num assentamento paleolítico em Çatalhoyüuk na Anatolia, Turquia.)

Os arqueólogos encontraram várias imagens de mulheres datadas da era paleolítica (35.000 a 10.000 a.C.) em escavações na Europa, no Oriente Médio e na Índia. 

(Deusa-mãe encontrada em Creta.)

Essas estátuas ressaltam partes do corpo associadas à geração e à preservação da vida, como seios, ventre e nádegas exageradas. 

Esses povos provavelmente tinham uma ativa criação artística e uma organização social igualitária. 

A figura da Deusa-Mãe continuou presente durante muitos anos, mesmo muitas vezes coexistindo com outras divindades.

(Deusa Nut, entre os egípcios, ela existiu antes do Deus-Sol, pois ele ainda era apenas um aglomerado aquoso e sem forma. Ela era a escuridão, o céu e sustentava a vida e o destino final dos homens.)

No egito, apareceu como a deusa Nut, a mãe-céu. 

(Deusa Ganga, representada com corpo masculinizado. Esse fenômeno também é encontrado em representações semitas, pois como o livro do Gênesis nos ensina, a mulher foi um tipo de homem, mas com comportamento diferenciado. Uma transição interessante da imagem feminina para a masculina numa divindade.)

Reinou ao longo de todo o vale do Indo-Ganges, na Índia, como Ganga.

(Deusa sumeriana Inana, esta deusa era reverenciada como provedora da fertilidade e da sexualidade. Era conhecida no céu como o planeta Vênus.)

Chamavam-na de Inana na antiga Suméria...

(Deusa Ishtar, também uma deusa da fertilidade e representada como o planeta Vênus no céu.)

...Ishtar na Babilônia...

(Deusa cretense Potnia, deusa da Lua e dos animais.)

...Potnia em Creta...

(Deusa grega Deméter, deusa dos grãos.)

...Deméter na Grécia, a deusa da agricultura, até ser dominada por uma imagem paternalista e patriarcal.

A divindade feminina foi desaparecendo por meio de invasões e guerras.

(O filme As Brumas de Avalon, adaptação do livro com o mesmo título lançado na década de 1980, relata de forma bem interessante a chegada do cristianismo na Bretanha (Inglaterra) e como a Deusa sucumbiu a essa nova religião sob o cenário do Rei Arthur. Assistam!)

Na época do surgimento da Babilônia, por exemplo, o deus Marduk tomou o lugar da Grande Deusa, cortando-a em pedaços para construir o universo, mesmo ele já estando pronto.

Javé só conseguiu acabar com a função das deusas, quando os sacerdotes judeus baniram, sob rigoroso controle e ameaças espirituais as deusas Asherah de Canaã e Ishtar da Babilônia - que durante muito tempo tiveram seguidores fiéis entre os israelitas, sobretudo mulheres - exercendo esse expurgo de forma violenta  e  com confrontos.

(Deusa Asherah, contraparte feminina de Jeová.)

Deus criou o mundo sozinho...

Mas nas entrelinhas do Antigo Testamento a divindade feminina aparece: é Sofia, a deusa da sabedoria.

(Deusa Sophia dos gnósticos e cristãos cátaros, que reverenciavam-na como a esposa de Deus. Sophia também é conhecida secretamente ente as ordens esotéricas como o Espírito Santo.)

(Michelangelo, pintor da Capela Sistina, representou Sophia sustentando Deus. Ele era um iniciado da Ordem Iluminati que só veio a ser conhecida em 1776.)

A Sabedoria surge como uma espécie de esposa de Javé no livro dos Provérbios. A deusa foi uma figura poderosa na cultura helenística do Mediterrâneo, e retornou com a figura da Virgem, na tradição católica romana.

Deus e as Religiões

Veja abaixo, como Deus é concebido nas várias religiões do mundo:

Cristianismo

Para os católicos é o Senhor criador de todas as coisas, ao mesmo tempo: Pai (Deus), Filho (Jesus) e Espírito Santo. 

(Santíssima Trindade)

Os protestantes e evangélicos seguem a mesma concepção, com algumas diferenças. 

Espiritismo

É a inteligência Suprema, causa primária de todas as coisas, conceito do Livro dos Espíritos, codificado por Allan Kardec. 

(Jesus é um espírito de elevada evolução e hierarquia.)

Não creem que Jesus seja Deus. 

Ele foi um homem que passou por várias encarnações até se tornar um espírito puro, assim como o próprio Deus deste universo.

Judaísmo

É o Criador e Legislador. 

Por meio do profeta Moisés, introduz as leis civis e religiosa da Torá.

(O Nome de Deus é assim representado entre os cabalistas e secretamente entre os veneráveis rabinos.)

Seu nome não deve ser pronunciado, porque é sagrado, mas aparece designado como Yahweh nas Escrituras e somente cabalistas treinados podem entender, manipular e pronunciar este nome. 

Islamismo

Allah é absoluto e recebe no Corão 99 nomes ou atributos que enfatizam que Ele é a origem de todas as qualidades positivas do universo.

(Como Jeová no judaísmo, Allah jamais pode ser representado, pois nada contêm sua sagrada imagem entre os homens.)

Alguns deles: al-Gahani, O rico e infinito; al-Muhyi, O doador da vida e al-Alim, O conhecedor de tudo.

Hinduísmo 

O panteão hindu é bastante complexo...

Há perto de 330 milhões de divindades. Os deuses reencarnam e são representados sob diferentes formas.

(Os deuses mais importantes no hinduísmo.)

Os mais importantes, porém, compõem a sagrada trindade formada por Brahma, deus da criação, Vishnu, o que preserva e Shiva, o destruidor e recriador.

Budismo

Não concebe a figura de um ser superior, onisciente e onipotente. 

O caminho para alcançar o sagrado depende das ações do indivíduo. 

(No budismo não existe um indivíduo como Deus, mas uma Força inteligente e imanente que perpassa todas as coisas, que nos cria e forma.)

A ideia de Deus é substituída pelas forças que regem o universo, porque Deus é essa força. 

Candomblé

Olorum é o Deus supremo e criador dos orixás, divindades africanas que fazem ligação entre o mundo espiritual e o terreno. 

Mas ele não interfere no funcionamento do universo, que fica a cargo de seus filhos divinizados, os orixás. 

(Oxalá, o criador dos homens.)

Olorum incumbiu Oxalá, o mais sábio deles, de criar todas as coisas, mas como ele não reverenciou Exu, a Terra acabou sendo criada por Odudua. 

Para Oxalá, sobrou a criação dos homens e dos outros seres vivos. 

Os orixás têm características parecidas com os humanos. 

Umbanda

Tem os mesmos orixás do Candomblé, pois é um ramo renovado da mesma religião, mas eles não se manifestam no culto.

São os guias que se apresentam para os médiuns. A tríade principal desses guias é formada por índios e caboclos, pretos velhos e crianças, desencarnadas, mas que seus espíritos ajudam ao pedinte guiando-o a uma solução ou cura de seus problemas.

(Exu, orixá que dá aos seus filhos o bem e o mal.)

Os Exus, orixás que são o princípio dinâmico da vida social, também são importantes, e não são seres bons ou maus, apenas são espíritos zombeteiros que podem ajudar ou não, conforme o pedido e autoridade do médium.


Fim.:.


Referências Bibliográficas

Uma História de Deus, de Karen Armstrong, ed.Companhia das Letras, 2002.

Deus, Uma Biografia, de Jack Miles, ed. Companhia das Letras, 2002.

Experimentar Deus, de Leonardo Boff, ed. Verus, 2002.

A Trindade, Uma Aventura Teológica, de Francisco Catão, ed. Paulinas, 2000.

Sobre Deus e o Sempre, de Nilton Bonder, ed. Editora Campus, 2003.

O Poder do Mito, de Joseph Campbell, ed. Palas Athena, ed. 1990.




sábado, 25 de abril de 2015

Deus, o Grande Mistério do Ser Humano - Parte 6

(A experiência de um encontro com Deus, independentemente da orientação religiosa, consegue mudar completamente o curso da vida de uma pessoa. É uma experiência intensa e profunda, que poucas coisas no mundo podem se comparar...)

"Deus existe, mesmo quando não há", diz Riobaldo, o célebre personagem de Grande Sertão Veredas, do escritor mineiro Guimarães Rosa. 

No entanto, sem fé, não há modos de chegar a essa constatação - como ocorreu com o homem da canção dos índios cherokee, apresentado no início desta matéria.

Deus é a palavra mais fraca que encontramos para designar a plenitude de uma experiência religiosa...

(Não importa qual é sua religião, se esse caminho lhe convida a se conectar com a fraternidade, o perdão e o renascimento...

(... ou se lhe conforta o coração lhe dando uma alternativa de esperança quando nada no mundo lhe oferece...)


(...Parabéns! Você encontrou o seu lugar de paz e transcendência em meio ao grande universo criado por Deus.)

A tradição contemporânea propõe uma união mais holística do Sagrado: Deus está, sim, presente no mundo, mas o mundo todo também está presente nEle. 

O divino é, ao mesmo tempo transcendente e imanente. Se somos limitados para descrever ou definir Deus, Ele deve ser experimentado como uma vivência de dimensões não racionais.

(A matéria de transcendência, reencarnação e experiências místicas sempre trouxeram questionamentos que somente agora os cientistas estão começando a entender. Existem áreas do cérebro que são ativadas nos momentos de plenitude espiritual. A eletro-estimulação nos giros occipitais do cérebro, por exemplo, oferecem ao indivíduo a experiência de teofania...)

Embora sem nome adequado, Deus arde em nosso coração e ilumina nossa vida, então, não precisamos mais crer em Deus. Simplesmente, sabemos dele porque o experimentamos. 

(Estudos recentes da Universidade de Massachusetts-EUA conseguiram delimitar algumas áreas cerebrais que quando estimuladas eletromagneticamente, proporcionam experiências espirituais ao indivíduo: Lobo Parietal (região em amarelo) proporciona a sensação de união com o universo. O Lobo Frontal (azul) amplia a concentração e produz a sensação de meditação profunda. Lobo Temporal (verde) produz a sensação de gozo espiritual. Lobo Occipital (rosa) produz imagens de viagens fora do corpo ou aparições de símbolos religiosos, como: velas, estrelas, cruzes...)

O homem tenta alcançar a conexão com o divino de diversas formas: por meio da oração, da meditação, da filosofia, da arte, da música, da dança, das práticas ritualísticas e até mesmo do sexo. 

As religiões podem divergir em muitos pontos, mas a mensagem do Amor supremo aparece em todas elas, sem exceção. 

(Criado na década de 1980, o Capacete de Deus gerou controvérsias sobre a espiritualidade. O Dr. Michael Persinger quis provar que experiências espirituais podem ser produzidas artificialmente, apenas estimulando, na frequência adequada e é aqui que está o mistério, o Lobo Parietal do cérebro, onde pacientes relataram ouvir Deus falando com eles.)

Quando o ser humano se desenvolve plenamente no amor de Deus, da maneira como a Vida lhe apresentou essa experiência transcendente, ele se torna um espelho especial no qual o objeto e reflexo são um só, e se este Deus é amoroso, o amor irá transparecer; se for caridoso, a caridade será inata a esse indivíduo; se Deus for a perfeição, ou a piedade ou, ainda, a compaixão, tudo isso fará parte do dia a dia do caráter desse homem que se arriscou em estabelecer uma conexão com o invisível e impalpável.

(Mais de 30 anos se passaram, mas os estudos com o Capacete de Deus ainda não foram concluídos, porque existem voluntários que não sentem nada ao utilizá-lo. No entanto, serve para nos provar outra coisa: As experiências espirituais estão bem longe de serem invenções de mentes fracas. Elas são reais e localizáveis no corpo humano, da mesma maneira que as emoções afetam o coração...)

Uma história hindu conta que uma mulher aflita se dirigiu ao sábio Rama-Krishna. Dizia:

[Mulher]: "Ó, Mestre, não sei se amo Deus."

[Rama-Krishna]: "Não há nada que você ame?"

[Mulher]: "Há o meu pequeno sobrinho."

[Rama-Krishna]: "Eis aí seu amor a Deus, no seu amor a esta criança!"

(A mais recente descoberta neste ramo científico conhecido como Neuroteologia, vai mais além, e conceitua que nascemos para acreditar. Conhecido como o Gene de Deus ou VMAT2, este segmento cromossômico conteria a explicação do porquê alguns indivíduos creem e, outros não, em Deus. O Geneticista Dean Hamer propõe que a fé foi uma programação evolutiva e protetiva do ser humano e, como evoluímos, tal proteção não é mais necessária, fazendo com que o homem moderno se afaste desta busca espiritual gradativamente.)

Antes de procurar o Ser Supremo que existe acima de tudo e de todos, ensinavam os místicos, enxergue-o dentro de você. 

No Sufismo, o lado místico do Islã, o uso da flauta ney (símbolo do sopro original da criação) expressa essa incessante busca por Deus. 

A música linda e triste tocada nos rituais apresenta a angústia do ser humano por estar desligado de sua origem e fonte de existência. Afinal, dizem os sufis, fazemos parte dEle e para Lá voltaremos um dia. 

(O Sopro original de Deus pode ser ouvido dentro da teologia Sufi através da flauta ney.)

Como escreveu, certa vez, o filósofo e educador Rubem Alves:

"Deus existe para tranquilizar a saudade..."




Continua...


sábado, 11 de abril de 2015

Deus, o Grande Mistério do Ser Humano - Parte 5


(O homem moderno tenta ver Deus também como um elemento moderno. Provavelmente, Ele não se preocupa mais em bisbilhotar as vidas alheias, mas também, não deseja apenas salvá-las de si mesmas. Ele deve buscar o desenvolvimento do Homem como um todo.)

Com o tempo, a figura do Deus patriarcal das religiões monoteístas foi perdendo a abrangência diante dos questionamentos advindos com a evolução cultural da humanidade. 

Teólogos e pensadores passaram a conceber Deus como uma realidade suprema, impessoal e transcendente, buscando uma imagem mais inclusiva e geral da divindade.

(O estudante do misticismo ou de teologia nunca terá livros suficientes em suas estantes... Ler e ler de novo, e ler mais um pouco... Essa tarefa nunca acaba...)

Aproximaram-se de outras visões do Sagrado, especialmente as orientais. 

Foi assim que nasceu a tradição mística entre os judeus, cristãos e muçulmanos, um tema interessante de estudo e tão vasto que, creio eu, se me dedicasse toda a minha vida nela, não leria nem 30% de toda produção desses homens. 

(Santo Agostinho de Hipona)

O pensador católico Santo Agostinho, por exemplo, via o conhecimento interior de cada um como indispensável para entender Deus.


(De tudo o que Santo Agostinho deixou para nós, o mais sublime é perceber que questionar não é pecado.)

Místicos como Jacob Boehme, cristão, e Ilbn Arabi, muçulmano, cada qual à sua maneira afirmavam que os caminhos espirituais se encontravam dentro de cada indivíduo. 

(Jacob Boehme, filósofo e místico alemão, em seu livro O Caminho para o Cristo, disse: "Oh! Quanto tempo! Quanto tempo! Tanto tempo vivi iludido e a destempo... No tempo que é e não é tempo... De contratempo em contratempo...")

(Ilbn Arabi ou Abū Bakr Muhammad ibn 'Alī ibn 'Arabi, místico sufi, deixou escrito em seu livro Epístola de Luz: "Tenha consciência, vergonha frente a Deus. Ele será um bom motivo para estares prudente, vigilante. Te preocuparás, então, pelo que estás fazendo, dizendo e pensando, e os pensamentos e sentimentos que sejam feios aos olhos de Deus não poderão assentar-se em teu coração. Teu coração estará assim a salvo de desejar ações que não estejam de acordo com a vontade de Deus. Valoriza teu tempo, vive o presente. Não vivas imaginariamente, ou gastes mal o tempo de que dispões. Deus prescreveu um dever, um ato, um culto para cada momento. Aprende qual é e apressa-te para fazê-lo. Primeiro leva a cabo as ações que Ele estabeleceu como obrigatórias. Logo, realiza o que mandou fazer por meio do exemplo do seu Profeta. Depois, faça também as ações boas e aceitáveis que Ele deixou para tua livre decisão. Trabalha para servir aos que estejam necessitados. Tudo quanto faças, faça-o com o propósito de te aproximares de teu Senhor em teus atos de adoração e nas orações. Pensa que cada ação possa ser teu último ato, que cada oração possa ser tua última prostração, que possa ser que não tenhas outra oportunidade. Se o fazes assim, terás um novo motivo para manter-se vigilante e, também, para chegar a ser sincero e verdadeiro. Deus valoriza menos as boas ações feitas inconscientemente e sem sinceridade, que as realizadas consciente e sinceramente".)
 
Muitos filósofos, a partir do século 19, chegaram a decretar a "morte de Deus". Deus como é visto hoje até pode realmente desaparecer, porque ideias religiosas sempre foram descartadas quando pararam de fazer sentido para a vida dos fiéis, mas como o ser humano não pode suportar o vazio e a desolação, uma nova ideia teria de surgir para preencher o anseio da transcendência.

(Karl Heinrich Marx, revolucionário e intelectual alemão do séc. 19, fundador das primeiras ideias comunistas que, apesar de sua formação judaica (seu pai foi um rabino e poucos sabem disso), duvidou da misericórdia e graças divinas, levando uma vida marginal da fé. Apesar de ter conseguido deixar ideias igualitárias, não encontrou um Deus amoroso em suas jornadas intelectuais...)

É essa fragilidade espiritual do ser humano, a sensação de pequenez diante do Todo, que mantém a chama divina sempre acesa na trajetória da humanidade. 

(Será que um dia o homem deixará Deus? Acredito que a ideia de Deus está tão intimamente ligada a nós, que nesses momentos, entendo as doutrinas budistas que asseveram que Deus é nós mesmos, e é por isso que Ele sempre existirá.)

A vida é extremamente frágil e quando vem a angústia, ou algo inesperado como uma doença ou morte violenta, necessitamos de elementos que deem sentido nesse mundo.

Até mesmo alguns sonhos podem ser interpretados como avisos divinos.

(Ouvi por 16 anos um homem de origem simples dizer: "Suba o primeiro degrau com fé. Não é necessário que você veja toda a escada. Apenas dê o primeiro passo." In memorian, Sr. Ubaldino, fiel e piedoso Maçon/Batista por toda a sua vida.)
 
Embora o intelecto humano não possa oferecer nenhuma prova da existência divina, o próprio Deus pode ajudar o homem a percorrer o árduo caminho em busca de si mesmo, na visão do psiquiatra alemão Carl Jung.

Ele foi muito criticado na época por aproximar-se da religião e ciência.

(Carl Gustav Jung, psiquiatra e psicoterapeuta suíço, disse uma vez: "O conhecimento da verdade é a intenção mais elevada da ciência e considera-se mais uma fatalidade do que intenção se, na procura da luz,provocar algum perigo ou ameaça. Não é que o homem de hoje seja mais capaz de cometer maldades do que os antigos ou os primitivos. A diferença reside apenas no fato de hoje ele possuir em suas mãos meios incomparavelmente mais poderosos para afirmar a sua maldade. Embora sua consciência se tenha ampliado e diferenciado, sua qualidade moral ficou para trás, não acompanhando o passo. Esse é o grande problema com que nos defrontamos. Somente a razão não chega mais a ser suficiente!")

É preferível que nós aceitemos conscientemente a ideia de Deus, em vez de negá-la, pois se assim não o fizermos alguma outra coisa é colocada em Seu lugar, geralmente alguma coisa bastante imprópria e estúpida.

Interpretada de forma fundamentalista e deturpada, a figura divina pode servir a jogos de poder - como foi no passado e como ocorre ainda hoje, justificando atitudes terroristas, guerras e outras crueldades.



(Conflitos em países como a Índia, Tibet, Irlanda onde a fé foi a motivação para as maiores atrocidades na História da Humanidade... Quando a fé vence o amor, se este é o maior dom dos homens?)

(Ideais fundamentalistas precisam deixar de existir nos corações daqueles que professam uma fé num Deus amoroso. Ou não valerá de nada... No final, nós mesmos somos o Diabo que nos atormenta...)


(Osama bin Mohammed bin Awad bin Laden, filho de um magnata do petróleo, chamado entre os íntimos de O Príncipe, filho esquecido da 10ª mulher de seu pai, cresceu revoltado pela abastança que o cercava e nunca entendeu o poder e a graça que Deus lhe deu: De ser um homem poderoso para mudar o seu mundo, melhorando-o pelo conhecimento. Escolheu destruí-lo em nome de um deus que nunca existiu...)

Para perceber como Deus se revela e onde está a vida é preciso quebrar a ideologia das imagens de castigador e violento, atrelado aos interesses políticos e econômicos de quem ambiciona poder à custa da miséria. 



Continua...


sábado, 28 de março de 2015

Deus, o Grande Mistério do Ser Humano - Parte 4

(As ruínas da cidade de Babilônia estão sendo ameaçadas pela guerra e pelo novo crescimento industrial e habitacional de Bagdá.)

(Os Jardins Suspensos da Babilônia, reconstituição artística, umas das maravilhas do mundo antigo, e pertencia a Nabucodonossor.)

O abandono dos deuses pagãos em favor do monoteísmo instaurado pelos judeus, quando estavam exilados na Babilônia, não se deu de um dia para outro nem ocorreu de forma tão tranquila quanto se pensa.

(Apesar de acreditarmos que o exílio dos Judeus na Babilônia foi algo sofrido, na verdade, ali houve um grande desenvolvimento do povo, em sua cultura e teologia. Foi ali que os primeiros livros foram de fato compilados com a história e teologia do povo. Também foi ali que a Cabala, a parte mística da teologia judaica surgiu em escritos e nos ensinamentos de veneráveis rabinos; a formação das primeiras sinagogas foram formatadas ali; e, a forma bancária financeira que conhecemos hoje, a qual os templários também utilizaram na Idade Média, germinou em terras babilônicas.) 

Para entender o monoteísmo de Israel, é preciso compreender seu contexto histórico-social, porque não se pode fazer uma leitura ao pé da letra do Velho Testamento. Ao afirmar que Deus era único e poderoso tentava-se na realidade enfatizar que os judeus eram uma raça única e pura.

Javé nasceu para manter essa sociedade tribal igualitária e acabar com os deuses e deusas antigos. 

(Um poste ídolo em honra à Aserá, contraparte feminina de Jeová, no entanto, renegada pelos rabinos após o exílio da Babilônia e nas compilações dos livros do Velho Testamento.)

(Deus Baal, antiga representação de Jeová, mas por motivos de confusão e dificuldade na doutrinação dos novos judeus, essa representação foi demonizada e banida. Mas era assim, nos tempos dos Juízes e Profetas que o Deus judaico era visto pelos seus crentes.)

A mudança para o monoteísmo foi brusca, porque o grupo que determina o Deus único tem o controle econômico na sociedade ligada à agricultura. O Deus único não se sobressaiu dos demais naturalmente, mas por processos de invasões e colonizações. 

(Este documentário do Canal History exemplifica muito bem como foi a conquista dos povos cananeus sob a égide de um novo Deus.)

O texto bíblico retrata esse momento mostrando Javé como um Deus ciumento, porque vivia em competição com outras divindades locais.

A organização de um novo regime político e econômico exige a institucionalização da prática religiosa, porque o projeto monárquico não se conecta bem com pluralismo. 

As Faces Divinas nas Escrituras

Deus é um protagonista de sucesso das Escrituras Sagradas...

(A Sefer Torah é um grande pergaminho que contém os 5 primeiros livros da Bíblia, ou o Pentateuco, como os primeiros cristãos romanos o denominaram. Ali se encontram os livros de Gênesis, Êxodo, Números, Eclesiastes e Deuteronômio escritos por Moisés, como a tradição ensina. No entanto, arqueologicamente falando, apenas os 4 primeiros livros são atribuídos a Moisés sendo que Deutorônomio seu provável escritor foi Josué, o primeiro Juiz após a morte do líder. Apenas os homens da sinagoga podem manusear a Sefer Torah e não pode ser lido sem que a cabeça esteja coberta ou tocar com os dedos em suas letras, pois a Cabala ensina que as Letras são tão sagradas quanto o próprio Deus, pois Ele as proferiu.)

Há mais de 2 mil anos, vem sendo lido por pessoas que querem assimilar o máximo de sua influência. O Deus da Torá é um legislador que trouxe as leis civis dotadas na sociedade por meio de Moisés.

(Um longa metragem americano de Dez/1998 em forma de desenho adaptando a história bíblica da vida de Moisés. Um dos momentos mais interessantes é a Sarça Ardente, um dos poucos momentos bíblicos em que Deus se permite reencarnar numa forma física. Ali as vozes, feminina e masculina, nos dão uma ideia não apenas da pluralidade de Deus, mas que sua unicidade é de duas naturezas.)

O do Novo Testamento é mais voltado à causa dos pobres. Ao longo do relato bíblico, Deus apresenta diversas personalidades, conforme as influências políticas e históricas do período em que  texto foi escrito. 

(Deus no Éden é uma presença nivelada ao do ser humano. Ele conversa, aconselha e percebe as necessidades de suas criaturas.)

No livro Gênesis, por exemplo, é o generoso criador do céu e da terra, mas manifesta seu lado punitivo quando Adão e Eva o desobedecem. Interfere nas lutas territoriais, mostra-se inacessível, revela-se em milagres, é protetor.

(O Arco de Tito que mostra o saque do Templo de Israel levando ali a Arca e os tesouros internos do Santíssimo Lugar. As III, VII e VIII legiões romanas foram irresistíveis aos judeus sem armamento bélico ou conhecimento militar devido ao domínio romano.) 

Depois do ano 70 da Era Cristã, quando os romanos reprimiram uma revolta judaica saqueando Jerusalém e destruindo o segundo Templo, o Judaísmo transformou-se definitivamente numa religião de exilados. 

(O Talmud é um livro tão sagrado quanto a Torá, pois contém os discursos e ensinamentos dos veneráveis rabinos dos tempos bíblicos. É dividido em duas partes como a Bíblia chamados de Mishná e Guemará. Ali se encontram todas as leis de forma minuciosa quanto a conduta e ética judaicas.)

A tradição do Talmude, desenvolvida por sábios rabinos e compilada nos séculos 4 e 5, surgiu para cultivar o senso de que Deus continuava entre os fiéis. É quando se estabelece a noção de Shekiná - ou seja, a presença de Deus na Terra. 

O Novo Testamento dá continuidade a essa ideia. Jesus retoma a religiosidade não oficial das aldeias de seu tempo, trazendo um Deus da partilha. 

(Robert Powell em 1977 deu vida e rosto a Jesus no filme de Franco Zefirelle, Jesus de Nazaré. Powell ficou tão impactado com a vida do Messias judeu que nunca mais quis fazer nenhum outro trabalho de atuação.)

(Robert Powell, atualmente. Um dos rostos mais famosos que performaram Jesus Cristo.)

Cristo tem caráter divino e humano ao mesmo tempo. Prega o amor e protege os excluídos, revelando a face afetuosa e amiga de Deus. Com a figura de Jesus, Deus pela primeira vez, deixa de ter apenas um caráter mítico para se tornar histórico. 

Para os cristãos, Jesus é o Messias enviado por Deus e, ao mesmo tempo, a segunda figura divina na Santíssima Trindade.

(Uma das poucas representações de Maomé que aparece seu rosto, o qual nunca deve ser mostrado. Aqui ele se encontra em Meca ensinando o Alcorão aos árabes.)

O islamismo apareceria 700 anos depois de Cristo, com o profeta Muhammad (Maomé), que, segundo os muçulmanos, recebeu o Corão diretamente de Deus. 

No livro sagrado do Islã, Allah é a origem de todas as qualidades positivas do universo. É o al-Halim, o mais clemente, mas também al-Khafid, o que rebaixa, entre outras denominações que expressam seus atributos infinitos. 

(Alcorão ou Corão é o livro sagrado dos mulçumanos. Ali encontramos histórias e personagens bíblicos recontados sob novas referências. Arqueologicamente falando, não podemos considerar esses relatos dos personagens bíblicos no Alcorão como válidos, afinal, esses relatos surgiram bem anteriormente ao da sua criação, podendo conter algumas corruptelas como teólogos asseveram, mas é interessante num contexto cultural de apreensão de uma teologia.)

"Eu [Allah] era um tesouro oculto e amei ser escolhido, então criei os universos", diz um texto do Hadith, a coleção de ditos, ações e exemplos do profeta Muhammad.

Os 124 mil profetas que vieram ao mundo desde Adão são tidos como amigos de Allah e funcionam como canais de comunicação entre o divino e o humano. 



Continua...


Aranel Ithil Dior. Tecnologia do Blogger.

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