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sábado, 21 de maio de 2016

Maria, a Face Feminina de Deus - Parte 3

(Descobrir a verdadeira identidade de uma personagem tão central em meio as lendas e fantasias de uma história perdida e, contrapondo a ânsia em trazer para suas novas fronteiras, a certeza de uma Fé que dava seus primeiros passos no mundo, é quase uma missão impossível...)

Desde o momento em que Maria engravida, os fatos históricos perdem destaque para dar lugar aos dogmas teológicos que envolvem sua figura. 

Para os católicos, Maria foi concebida sem pecado: O Dogma da Imaculada Conceição, e manteve a pureza sexual durante a até mesmo depois do parto: A Virgindade Perpétua. 

Os protestantes relutam em aceitar tais doutrinas, lembrando que algumas traduções da Bíblia mencionam claramente os "irmãos" de Jesus. 

"Vieram ter com ele sua mãe e seus irmãos, e não podiam aproximar-se por causa da concorrência do povo. E lhe comunicaram: Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e querem ver-te. Ele, porém, lhes respondeu: Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a praticam.
Evangelho de São Lucas 8: 19-21

"Não é este o filho do carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? Não vivem entre nós todas as suas irmãs? Donde lhe vem, pois, tudo isto?"
Evangelho de São Mateus 13:55

"Depois disto desceu ele para Cafarnaum com sua mãe, seus irmãos e seus discípulos; e ficaram ali não muitos dias."
Evangelho de São João 12:2

"Dirigiram-se, pois, a ele os seus irmãos, e lhe disseram: Deixa este lugar e vai para a Judeia, para que também os teus discípulos vejam as obras que fazes. Porque ninguém há que procura ser conhecido em público e, contudo, realiza os seus feitos em oculto. Se fazes estas coisas, manifesta-te ao mundo. Pois nem mesmo os seus irmãos criam nele..."
Evangelho de São João 7:3-5

"Mas, depois que seus irmãos subiram para a festa, então subiu ele também, não publicamente, mas em oculto."
Evangelho de São João 7:10

(Um dos temas que me fascinam no estudo da História Antiga e Medieval: as Legiões Romanas. Exemplo de liderança, comando, disciplina e estratégia, até os dias atuais, são um modelo para ataques e assaltos de Forças de Defesa modernas. Mas, no tempo de Jesus, ter uma força dessas comandando a política e a vida social de vilas e aldeias com uma cultura tão diferente era um problema potencial. A disciplina deveria ser mantida a todo custo, e conhecer o número e quais tipos de homens e mulheres que habitavam esses ajuntamentos era importante. Para o romano, o único ser humano que deveria ser respeitado e valorizado era o próprio romano. Acima, cenas da série Roma, produzido pelo canal privado HBO, de 2005.) 

"Todos estes perseveravam unânimes em oração, com as mulheres, estando entre elas Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos dele."
Livro dos Atos dos Apóstolos 1:14

"(...) e também o de fazer-nos acompanhar de uma mulher irmã, como fazem os demais apóstolo, e os irmãos do Senhor, e Cefas?"
1ª Epístola aos Coríntios 9:5

"(...) e não vi outro dos apóstolos, senão a Tiago, o irmão do Senhor."
Epístola aos Gálatas 1:19

A palavra "irmão" que aparece nos textos acima vem do grego adelphós, literalmente, "nascido do mesmo útero", não deixando nenhuma margem de dúvida quanto a origem desses indivíduos. Apesar disso, os dogmas católicos afirmam que essas passagens se referem a algum tipo de parentes próximos, como enteados ou primos de Jesus. 

Na cultura judaica, existe grande importância quanto a procedência da família, exatamente, para que todos se certifiquem que os indivíduos ali, de fato, sejam herdeiros das promessas e do sangue dos Patriarcas Abraão e Jacó. 

Os familiares de Jesus foram reconhecidos como legítimos filhos de Maria e irmãos de Jesus até mesmo pelos apóstolos. Entretanto, mesmo quando Pedro ou Paulo escreviam em suas epístolas, essa história havia decorrido um espaço de tempo de mais de 50 anos, podendo, muito do que foi registrado, ter sido apenas tradições orais. 


(Particularmente, eu não vejo nenhum problema em ver Maria como mãe de muitos outros filhos. Isso evidenciaria sua humanidade, e o esforço hercúleo em manter-se firme numa nova fé e perspectiva de Deus... Esse reconhecimento, apenas, enalteceria ainda mais essa mulher extraordinária!)

Não há solução para a polêmica da virgindade de Maria...

A Arqueologia, a Teologia e a Antropologia dão o xeque-mate, mas a tradição, as ideologias formadas em torno da fé individual e coletiva, a insistência da Igreja Católica em manter em suas linhas de defesa esses ensinamentos, impedem devidas e importantes revisões dos textos bíblicos, contra-argumentando que tudo é apenas uma questão de "crer ou não crer".

Entretanto, a opção católica por reforçar a virgindade de Maria servia como escudo contra os adversários do Cristianismo no século 1, que queriam provar a ilegitimidade de Jesus.

Muitos teólogos se apoiam em outros argumentos como afirmar que em outras referências, os vocábulos apresentados poderiam ser traduzidos como "primos" e, que por conta da grande mortalidade infantil da época, ter tantos filhos seria algo muito incomum. De fato... Isso, sim, seria um bom milagre para Maria...

É provável que a controvérsia sobre a virgindade eterna de Maria nem tenha sido tão intensa durante o tempo em que ela viveu, ou até mesmo, quando os primeiros escritos da Bíblia estavam sendo formulados, por isso, tantas controvérsias, pois se referiam apenas a dados biográficos, contudo, periféricos, sobre a vida de Jesus. 


(O mais legal e lôco da vida deste romano pagão e, depois, do cristão Santo Agostinho de Hipona (354-430) é que ele mesmo encarnou o que seriam os primeiros cristãos convertidos: pessoas hedonistas, com vidas entranhadas numa sexualidade perturbada e que, ao se converterem, repudiavam tudo, até mesmo o sexo e o casamento, exaltando o improvável, como uma concepção virginal. Toda essa metamorfose, de larva à borboleta, por assim dizer, fez parte das doutrinas e ensinamentos de Santo Agostinho. Para termos dados mais fidedignos é necessário rasparmos o remorso e o arrependimento de tudo o que ele viveu e escreveu... Acima, trailer do filme Santo Agostinho, de 2008. )

Na verdade, isso só começou a ter importância com Santo Agostinho, no início do século 5.

Ele via o ato sexual como impuro, por isso, sendo Jesus filho de Deus, não poderia ser ao mesmo tempo filho do pecado...

Mas, e Maria, o que achava de tudo isso?

Atenta à complicada situação, Maria meditava com frequência. 

Um manuscrito, também apócrifo, traz relatos atribuídos à própria Nossa Senhora em conversas com o apóstolo João. 

São reflexões da mãe de Jesus sobre os acontecimentos extraordinários que começaram a suceder em sua vida. 

"Quem, em seu juízo perfeito, teria escolhido por mãe uma pobre moça, filha de um artesão, em vez de buscar a proteção de uma família poderosa?

"O que os homens não valorizam, Deus escolhe. Ele escolhe os mais humildes para mostrar sua glória."
Evangelho Apócrifo da Virgem Maria

"Maria, porém, guardava todas estas palavras, meditando-as no coração.
Evangelho de São Lucas 2:19


(Mesmo vivenciando um período de vozes e visões, Maria, uma menina com experiência mística e espiritual, manteve-se firme e sóbria diante da avalanche de mudanças em sua vida. Mesmo para o mais experiente buscador espiritual, enfrentar um período de convocação, no qual aparições, sonhos e vozes atormentam a consciência do indivíduo é uma tarefa das mais difíceis... Acima, cenas de Jesus: A História do Nascimento, de 2006.)

Traços da personalidade da jovem também ajudam a entender a preferência divina. Maria era uma moça consciente, temente a Deus, que nunca colocou um obstáculo para que ele materializasse seu filho nela. 

"Então disse Maria: Aqui está a serva do Senhor; que se cumpra em mim conforme a tua palavra. E o anjo se ausentou dela."
Evangelho de São Lucas 1:38

Ela era religiosa da descendência de Arão, e frequentava a sinagoga local e o templo de Jerusalém, até mesmo porquê o esposo de sua prima era também um dos sacerdotes escalados para servir ao templo e a sinagoga local naquele tempo, tornando essa prática quase uma obrigação familiar.  

"Nos dias de Herodes, rei da Judeia, houve um sacerdote chamado Zacarias, do turno de Abias. Sua mulher era das filhas de Arão, e se chamava Isabel. Ora, acontecendo que, exercendo ele diante de Deus o sacerdócio na ordem do seu turno, coube-lhe por sorte, segundo o costume sacerdotal, entrar no santuário do Senhor para queimar o incenso; e durante esse tempo, toda a multidão do povo permanecia na parte de fora , orando. E eis que lhe apareceu um anjo do Senhor, e, de pé à direita do altar do incenso. (...) Disse-lhe porém, o anjo Gabriel: Zacarias, não temas, porque a tua oração foi ouvida; e Isabel, tua mulher, te dará à luz um filho a quem darás  nome de João."
Evangelho de São Lucas 1: 5 e 13

Maria não se abalou nem mesmo quando José, seu futuro marido, tomou conhecimento da gravidez e decidiu abandoná-la em segredo, para não comprometer sua honra. Um anjo apareceu em sonho para seu noivo e tirou as dúvidas do coração de José. 

(Houve 6 reis Herodes na história, e Herodes I participou dos eventos da vida de Jesus. Ele era um homem fraco, covarde e edomita, odiado pelos judeus por isso... Tinha um enorme medo de ser assassinado por descendentes do Rei Davi, a profecia sobre o Messias lhe dava pânico, decretou um infanticídio odioso nos tempos de Jesus, e morreu sendo um dos homens mais perversos da história. Acima, reportagem do Jornal Nacional, do canal público Globo, exibido em março de 2013.)

"Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Estando Maria, sua mãe desposada [o vocábulo deveria ser traduzido como noiva, mas esse laço social na cultura judaica não existe, havendo um tipo de pré-casamento, com exceção apenas do contato físico entre os cônjuges. O compromisso e legalidade do relacionamento é reconhecido publicamente como um casamento.] com José, sem que tivessem antes coabitado, achou-se grávida pelo Espírito Santo.

"Mas, José, seu esposo, não querendo infamar, resolveu deixá-la secretamente. Enquanto ponderava nestas coisas, eis que lhe apareceu em sonho, um anjo do Senhor, dizendo: José, filho de Davi, não temas receber, Maria, tua mulher, porque o que nela foi gerado é do Espírito Santo. (...) Despertado do sono, fez como lhe ordenara o anjo do Senhor, e recebeu sua mulher. Contudo, não a conheceu, enquanto ela não deu à luz um filho, a quem pôs o nome de Jesus."
Evangelho de São Mateus 1: 18-20, 24,25

Para fugir do diz-que-diz do povo da pequena Nazaré, que naquela época não contava mais que 300 moradores, Maria seguiu para a casa de sua prima. 


(Encontro de Isabel e Maria. Acima, cenas do filme Maria, a mãe de Jesus, de 2010.)

Segundo o Evangelho de São Lucas, o filho de Isabel, que também grávida, esperava, se remexeu em seu ventre e ela reconheceu em Maria a mãe do Messias.

"Naqueles dias, dispondo-se Maria, foi apressadamente à região montanhosa, a uma cidade de Judá, entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel. 

"Ouvindo esta a saudação de Maria, a criança lhe estremeceu no ventre; então Isabel ficou possuída do Espírito Santo. E exclamou em alta voz: Bendita és tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre. E de onde me provém que me venha visitar a mãe do meu Senhor? Pois, logo que me chegou aos ouvidos a voz da tua saudação, a criança estremeceu de alegria dentro em mim. Bem-aventurada a que creu, porque serão cumpridas as palavras que lhe foram ditas da parte do Senhor."
Evangelho de São Lucas 1:39-45
  
Depois de três meses com a prima, Maria voltou para Nazaré e casou-se com José. A desconfiança de seu noivo fora vencida, mas os desafios de Maria estavam só começando...

Aos nove meses de gravidez, um recenseamento obrigou José e Maria a se deslocarem-se para Belém, cidade natal do carpinteiro. 


(Os recenseamentos eram comuns no Império Romano, ocorrendo em qualquer época ou razão enquanto o Império vigorou no mundo por 503 anos e mais 1000 anos em Constantinopla. No entanto, os cidadãos conquistados não precisavam se deslocar à suas cidades natais. Os dados arqueológicos e históricos afirmam que esses recenseamentos eram apenas para saber quantos homens, aptos para guerra, haviam na região conquistada. Não sabemos, exatamente, porque Lucas faz uma referência sobre uma viagem de José e Maria à Belém, acredita-se que foi para não haver boatos sobre a real paternidade de José quanto a Jesus. Acima, cenas do filme Maria, a mãe de Jesus, de 2010.)

"Naqueles dias foi publicado um decreto de César Augusto, convocando toda a população do império para recensear-se. Este, o primeiro recenseamento, foi feito quando Quirino era governador da Síria.

"Todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade. 

"José também subiu da Galileia, da cidade de Nazaré, para a Judeia, à cidade de Davi, chamada Belém, por ser ele da casa e família de Davi, a fim de alistar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida. 

"Estando eles ali, aconteceu completarem-se-lhe os dias, e ela deu à luz o seu filho primogênito, enfaixou-o e o deitou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria."
Evangelho de São Lucas 2:1-7


(O nascimento de Jesus. Acima, cenas do filme Maria, a mãe de Jesus, de 2010.)



Continua...



sábado, 7 de maio de 2016

Maria, a Face Feminina de Deus - Parte 2

(Delicada, sim, frágil... Com certeza, não!)

A delicadeza, geralmente, atribuída à Maria encontra eco nos relatos não-oficiais sobre seu nascimento e sua infância. Nada disso é relatado na Bíblia, mas é contado em detalhes pelo Proto-Evangelho de Tiago, escrito por volta do século 2.

No dia seguinte, ofereceu seus bens ao Senhor, e disse consigo mesmo [Joaquim, pai de Maria]: "Se vir o éfode do sacerdote, saberei que Deus me será favorável". Ao oferecer o sacrifício, notou o éfode do sacerdote [vestuário cerimonial só usado pelo sumo-sacerdote, um tipo de xale usado sob o hoshen, placa de ouro com as doze pedras da Tribo de Israel] quando este estava próximo ao altar de Deus. Não encontrando qualquer pecado em sua consciência, disse: "Agora vi que o Senhor me perdoou todos os pecados". Joaquim desceu justificado do Templo e voltou para casa.

Cumprindo-se o tempo para Ana, concebeu no nono mês [o que era raro naquele tempo, por isso a referência]. E perguntou à parteira: "A quem dei a luz?". Respondeu a parteira: "A uma menina". Exclamou Ana: "Eis que minha alma foi exaltada!" - e colocou a menina no berço. Quando cumpriu-se o tempo definido pela Lei, Ana purificou-se e deu de mamar à menina [infelizmente, naquele tempo, a mãe não poderia amamentar o bebê enquanto estivesse sangrando após o parto, sangramento este que é interrompido em 3 dias]. E pôs-lhe o nome de Maria.
Proto-Evangelho de Tiago, 5:1-2

Segundo esse texto apócrifo (sem autenticidade comprovada), Maria é isenta de pecado desde a concepção: Ana, sua mãe, seria estéril, mas suas preces teriam sido ouvidas por Deus, que lhe enviara um anjo dizendo que ficaria grávida. A famosa aparição se repetiria anos depois, com Maria. 

Com Joaquim, diz o apócrifo, Ana criou Maria num ambiente de extrema pureza, deixando-a aos cuidados de 12 virgens. 

Aos 3 anos, a menina foi entregue ao templo de sacerdotes de Jerusalém, onde ficou até a adolescência.

"Maria permaneceu no templo como uma pombinha, recebendo alimento pelas mãos de um anjo."
Proto-Evangelho de Tiago, 10:2

Afirma o texto, rejeitado por alguns teólogos e historiadores pelo tom fantasioso de alguns trechos. 

Apesar da suposta formação no templo, muitos pesquisadores acreditam que Maria não tenha recebido educação formal. Maria não sabia ler nem escrever, mas não era ignorante. Sua cultura tinha uma tradição oral muito rica. 

(Abaixo do pináculo do Templo, haviam salas nas quais crianças, meninos e meninas, aprendiam sobre os 5 primeiros livros da Lei. Para isso, nem sempre elas precisavam ler, pois havia um Rabi que lia para elas. Ali, elas aprendiam sobre a história de seu povo e seu Deus.)

Além do mais, escrever era muito caro, pois se usavam peles de animais. Aos 12 anos, Maria foi obrigada a deixar o templo para não maculá-lo com seu sangue, pois estava prestes a menstruar pela primeira vez.

"...nem se chegando à mulher na sua menstruação. Porque a vida da carne está no sangue.  Tudo o que se move, e vive, servos-á de alimento... Carne, porém, com sua vida, isto é, com seu sangue, não comereis."
Livro do Profeta Ezequiel 18:6; Levíticos 17:11; Gênesis 9:3-4.
(Os textos acima fazem parte de vários argumentos usados no Talmud para justificar que uma mulher menstruada não deve entrar no Templo, não ter relações sexuais ou amamente seu bebê durante o sangramento pós-parto.)

Ainda, segundo Tiago, os sacerdotes escolheram como seu noivo José, um homem mais velho, viúvo e pai de outros filhos. 

O Casamento de uma jovem com um homem mais velho era extremamente normal, pois a união era acertada entre as famílias, não era uma escolha pessoal dos noivos. Naqueles tempos, as mulheres casavam-se na puberdade porque a expectativa de vida era bem menor do que hoje. 

(José, um personagem tão importante e, historicamente, tão desprezado... Reconhecidamente tido como um homem humilde, bom esposo e pai de família, aceitou uma espiritualidade difícil que confrontou sua masculinidade. Aceitou uma mulher grávida de forma estranha e, aceitou, por meio de um sonho, que aquela mulher era especial. Criou aquela criança como sendo sua... José foi um homem excepcional... Acima, cenas do filme José, Pai de Jesus, de 2012.)

Apenas duas em cada cinco pessoas nascidas chegava à idade adulta...

O perfil corajoso e ativo que marcaria sua trajetória começa ser revelado no mundo da concepção.

Já ao receber a visita do anjo Gabriel, sua conduta não foi passiva: Maria questionou o mensageiro sobre como a gravidez seria possível, sendo ela ainda virgem. Ao saber que o Espírito Santo desceria sobre seu corpo, ela aceitou, conscientemente, que fosse feita a vontade do Senhor.

(Acho tão interessante quando Maria retruca ao anjo como ela teria seu filho... Isso mostra que ela era uma mulher inteligente e não seria enganada por qualquer epifania sem sentido!)

Maria entendeu o valor profético de seu papel de mãe e o quanto isso seria capaz de subverter a ordem econômica e social da época. E isso nada tem de maternidade silenciosa e submissa, é uma maternidade subversiva. 

Maria era uma mulher com bem mais autonomia do que nos é apresentada. 

Era capaz de dizer sim e não.

Não apenas dizer sim, obediente aos poderes estabelecidos, mas dizer não aos poderes opressores do povo e das mulheres. É possível interpretar Maria como símbolo do povo que busca a liberdade.


(Um momento muito importante, mas apenas registrado no Evangelho de João: O milagre da água em vinho, mostra uma mulher preocupada tanto com o bem estar das pessoas como com a missão de seu filho. Apesar disso, ela o confronta a se revelar antes de sua hora, evidenciando uma personalidade nada submissa.)

É o símbolo do povo, mulheres e homens, capaz de gerar em si mesmo a libertação do que necessita. 

Com apenas 13 anos e grávida, foi exposta a uma sociedade fortemente patriarcal - e machista

Além de não poderem ser alfabetizadas, as mulheres galileias do século 1 sofriam um sem-número de restrições: só podiam sair de casa com véu e capa, não podiam fazer as refeições com os homens (deviam estar prontas para servi-los, caso faltasse algo), iam sempre atrás deles ao caminhar para a sinagoga, onde se sentavam em lugares diferentes, e, em caso de adultério, eram apedrejadas publicamente.


(A visão liberal e equânime que Jesus apresentou aos líderes de seu tempo, não foi fruto apenas de um misticismo pessoal. Essa noção de igualdade para com o próximo foi algo construído no seio de uma família que privilegiava isso. Uma mãe que não ensina um homem a respeitar as mulheres, falha em sua função na construção da sexualidade de seu filho. E, Jesus foi um homem além de seu tempo no que tange o respeito e reconhecimento do feminino. Maria cumpriu seu papel de mãe ao ensiná-lo a agregar o feminino em sua vida espiritual, no qual germinou suas doutrinas de perdão e paz. Acima, cenas do filme Jesus de Nazaré, de 1977.)




Continua...

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A Mensageira do Céu - Parte 2


As duas primeiras partes do segredo de Fátima foram reveladas por Lúcia em 1927.

Segundo a Igreja, a primeira dizia respeito à premonição sobre a vida das crianças - Francisco e Jacinta estariam pouco tempo entre os mortais e Lúcia viveria mais, como realmente aconteceu.

Parece haver também uma "visão do Inferno", já que Lúcia viu imagens que sugeriam isso, projetadas na superfície da esfera que a aparição portava.

A segunda parte mencionava o fim da Primeira Guerra Mundial e o início da Segunda, além da ascensão e queda do comunismo da União Soviética. O restante do segredo ficaria oculto durante seis décadas por vontade expressa da Virgem Maria, de acordo com Lúcia.

Ao final de 1943, Lúcia - então gravemente doente - escreveu a terceira parte por ordem do padre jesuíta com quem se confessava. Mas esta só foi revelada no dia 26 de junho de 2000, por decisão do papa João Paulo II.

Falava de um anjo com uma espada de fogo, um "bispo vestido de branco", que caminhava entre os escombros de uma grande cidade com muitos cadáveres, principalmente de religiosos. Ao chegar no alto de um monte, ele era morto por um grupo de soldados.

O cardeal Joseph Ratzinger, da Congregação para a Doutrina da Fé, no Vaticano, apresentou uma interpretação que satisfazia ao papa: "O bispo branco" seria João Paulo II, que sofrera um atentado a bala em 1982. A interpretação não agradou a todos, porque na profecia o bispo morria e, na vida real, o papa sobreviveu.


E o Mistério Continua...

Embora o segredo tenha sido divulgado pela Igreja, alguns pesquisadores acreditam que seu conteúdo possa ter sido manipulado. Segundo alguns teológos, as duas primeiras partes do segredo de Fátima eram convenientes para a política de alguns países ocidentais da época.

Elas silenciaram o facismo europeu, os ditadores Hitler e Mussolini e o extermínio de 6 milhões de judeus, mas satanizaram a Rússia e o comunismo por combaterem o Catolicismo e por serem pomotores de guerras.

Alguns historiadores como Fernandes e D'Armada, que são co-autores do livro Fátima: Nos Bastidores do Segredo, também defendem que, ao redigir o mistério, Lúcia teria sido influenciada por seus confessores.

Um deles chamava-se José Bernardo Gonçalves. Ele já era confessor de Lúcia quando a Rússia passou a figurar na mensagem de Fátima. Teve, assim, acesso ao segredo e influência sobre sua redação antes de as aparições serem consideradas "digna de crédito" pelo bipo de Leiria, em 1930.

Esses pesquisadores acham que por trás destas manobras se ocultava um antigo sonho da Igreja: a conversão da Rússia ao Catolicismo.

A Igreja não faz novos pronunciamentos sobre esse assunto. Mas permanecem as teorias de que a mensagem não foi devidamente interpretada e pode ocultar revelações importantes à humanidade.

A única pessoa que poderia comprovar ou negar essas teorias morreu em 13 de fevereiro de 2005. Depois de viver 83 anos enclausurada, irmã Lúcia levou consigo o divino segredo de Nossa Senhora.


Guardado a 7 Chaves

Em um manuscrito de Lúcia pouco conhecido, datado de 1922, ela conta que o segredo revelado pela apareição constava de "palavrinhas".

A menina teria sido a única a ouvir a entidade falar enquanto as outra duas crianças, que estavam junto a ela, teriam escutado apenas zumbidos. Nenhum dele disse ter ouvido um zumbido mais longo a ponto de poder ter sido comunicado à vidente um discurso complexo.

Em 1927 Lúcia "recebeu permissão do Céu" para revelar as duas primeiras partes do segredo de Fátima. Anos depois, já no convento de Tuy, na Espanha, seu confessor ordenou que redigisse suas memórias, incluindo a terceira parte da revelação.

Em 1944 o manuscrito do "terceiro segredo" foi levado ao bispo de Leiria. O Santo Ofício pediu uma fotocópia dos escritos de Lúcia, além da carta lacrada contendo a sigilosa mensagem.

Na década de 50, o papa João XXIII teria lido o documento, mas não se pronunciou a respeito. O cardeal italiano Ottaviani afirmou que, em 1967, o mesmo papa guardara o segredo num arquivo, uma espécie de poço "no qual cai a carta até o fundo negro, muito negro, e ninguém vê mais nada".

Por isso acredita-se que o manuscrito original do segredo de Fátima esteja perdido em algum arquivo da Igreja.


FIM.:.



Referências Bibliográficas


Livro

Fátima: Nos Bastidores do Segredo, de Fina D'Armada, ed. Martins Fontes, 2001

Site
www.santuario-fatima.pt

Vídeo

 

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

A Mensageira do Céu - Parte 1


Uma das histórias mais belas do Catolicismo, as aparições de Nossa Senhora a três pastorinhos de Portugal foram cercadas de mistério durante muito tempo. Num dos encontros, ela teria feito importantes revelações à humanidade.

Na tarde de 13 de maio de 1917, três crianças pastoreavam ovelhas em um lugarejo chamado Fátima, perto da região de Leiria, em Portugal, quando observaram no céu uma espécie de relâmpago. A mais velha, Lúcia dos Santos, sugeriu a seus dois primos, Jacinta e Francisco Marto, que voltassem para casa, temendo que uma forte chuva desabasse sobre eles.


Antes de partir, porém, os três pastorinhos viram sobre um pé de azinheira uma "senhora vestida de branco mais brilhante que o sol", carregando uma espécie de rosário nas mãos. Ela disse que "vinha do Céu" e pediu que voltassem àquele mesmo local, conhecido como Cova de Iria, no mesmo dia do mês seguinte.

Assim foi feito. Em 13 de julho, a jovem luminosa reapareceu e fez às crianças uma surpreendente revelação. Essa mensagem ficou conhecida como "o segredo de Fátima" e, durante muito tempo, uma parte dela foi guardada a sete chaves pela Igreja Católica.

Impressionados com estes eventos extraordinários, peregrinos de todo o país acorreram a Fátima. E não demorou para que a misteriosa aparição fosse identificada como a Virgem Maria.

Durante seis meses, ela visitou aquele povoado pobre de Portugal, sendo vista apenas pelas crianças. Além de misteriosas revelações, também anunciou aos três pastores que realizaria um milagre, com data marcada: 13 de outubro. Nesse dia, 70 mil pessoas, entre católicos e céticos, se reuniram em Fátima para testemunhar evento inexplicáveis, como a chamada "dança do sol", quando então o astro teria se movido de um lado a outro do céu.


Enquanto milhares de católicos reagiam com demonstrações de fé, a Igreja iniciamente tratou o assunto com dúvidas e suspeitas, submentendo os três pastorinhos a vários interrogatórios. O resultado dessas conversas foi mantido em segredo durante muito tempo, até que, em 1978, a historiadora portuguesa Fina D'Armada descobriu, nos arquivos pessoais do padre Manoel Nunes Formigão, em Fátima, as transcrições dos relatos das crianças.

"Elas contaram que a aparição tinha pouco mais de 1 metro de altura, parecia uma menina com idade entre 12 e 15 anos e usava uma espécie de saia branca que descia até um pouco abaixo dos joelhos", afirmou a historiadora.

Ela vestia também um casaco branco e estava coberta por um manto do qual emanava uma luz forte. Falava sem mexer os lábios e não mencionou se fazia parte da família de Cristo ou de Deus.

Além disso, a jovem segurava uma espécie de esfera luminosa entre as mãos que parecia pender do pescoço com um cordão. Este foi interpretado pelos religiosos como um terço e a "bola luminosa", a partir de 1922, se converteu no Imaculado Coração de Maria.

A saia, relativamente curta para a época, "desceu" até o chão por imposição dos censores católicos. Tudo isso estava resgistrado nos arquivos dos primeiros interrogatórios sobre as aparições.


Segredo Bem Guardado

A menina Lúcia teria sido a única a ouvir a mensagem misteriosa que a Virgem Maria revelara. Ela tinha, então, 10 anos de idade. Com a morte de Jacinta e Francisco pouco tempo depois, tornou-se a única vidente viva de Fátima e seus passos começaram a ser acompanhados de perto pela Igreja.

Em 1921, a menina e sua mãe foram convencidas pelos religiosos católicos que deveria ir para um convento. Estando com apenas 14 anos, a ideia lhe causou profunda tristeza. Três anos depois, foi submetida a um rigoroso interrogatório, efetuado por autoridades eclesiásticas portuguesas.

E em 1925, passou a viver enclausurada num convento em Tuy, na Espanha, dedicando-se integralmente à vida religiosa.

Lúcia não pôde mais falar ou escrever sobre sua experiência. Somente o bispo de Leiria, José Alves Correia da Silva, à qual ela devia obediência, podia dar tal autorização e, mesmo assim, consultando antes o Cardeal-Patriarca de Lisboa e o Papa.


Os Três Pastorinhos

Lúcia de Jesus Santos teve sua vida marcada até o fim pelas aparições de Fátima. Seus primos Jacinta e Francisco Marto viveram menos tempo para lembrar dos episódios.


Jacinta morreu em 1920, aos 9 anos, e Francisco aos 11, um ano antes. As duas crianças foram vítimas da terrível influenza, uma epidemia de gripe que se espalhou pela Europa e matou milhares de pessoas naquela época.

Recentemente, o Cardeal-Patriarca de Lisboa, dom José Policarpo, declarou à imprensa que Lúcia foi a porta-voz das revelações. Durante as aparições Francisco era o mais contemplativo e Jacinta ficava de tal maneira emocionada que nada dizia.

O processo de beatificação de Jacinta e Francisco teve início em 1952, mas somente no dia 13 de maio de 2000 eles receberam, do papa João Paulo II, o título de beatos. A data foi marcada por uma grande cerimônia em Fáima, onde estão enterrados.

Acredita-se que a beatificação de Lúcia - falecida no dia 13 de fevereiro de 2005 - será rápida, a exemplo do que aconteceu com Madre Teresa de Calcutá, quando o papa dispensou a espera de cinco anos exigida para iniciar o processo. Mesmo depois da morte de João Paulo II, a tentativa de canonização dos pastorinhos iria seguir seu caminho.


Continua...




Aranel Ithil Dior. Tecnologia do Blogger.

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