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sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Maria, a Face Feminina de Deus - Parte 6

(Um momento polêmico no Brasil do tipo Madonna com sua canção Like a Prayer - o legal é que foi 10 anos antes!. Fafá de Belém, uma cantora consagrada por sua voz sonora e contralta, e também por atributos físicos, foi censurada no final da década de 80 por cantar essa canção em louvor a Nossa Senhora. Expondo e explorando um lado totalmente novo de sua própria vida, esta belenense enfrentou críticas e deixou essa linda canção composta por Roberto Carlos e Erasmo Carlos mostrando sua devoção a Maria.)

E depois que Jesus morreu?

A Bíblia não comenta o paradeiro de Maria após a crucificação de Jesus. Há apenas a menção a uma reunião com os apóstolo, o que já citamos nas postagens anteriores. 

Algumas pistas surgem em textos apócrifos como o Proto-evangelho de Tiago e os manuscritos atribuídos a Nossa Senhora. Essas alusões na literatura apócrifa foram escritas séculos depois, sobre o que poderia ter acontecido a ela - aparece em Éfeso com Tiago e em Jerusalém com Pedro - sempre vivendo passivamente sob a proteção de um homem.

(Comunidades de mulheres devotas a algum segmento religioso e teológico sempre ocorreram em todo o mundo. As sacerdotisas como eram conhecidas, eram aglomerados de mulheres viúvas ou separadas de seus maridos, mas que não tinham família ou direitos dentro da sociedade onde viviam. Destinadas a serem mendicantes, esses grupos humanitários foram os primeiros locais de ajuda e amparo à mulher no passado. Ali, elas aprendiam a rezar, cantar, cozinhar, costurar, fazer infusões medicinais e, o melhor, funcionavam como um tipo de hospital emergencial para a comunidade local. Com o tempo essas casas ganharam o status de grande importância, sendo o melhor local para aquelas filhas de grandes senhores de terras e animais que não conseguiam se casar. Hoje, o melhor representante desse movimento são os conventos católicos. Acima, cenas do filme As Brumas de Avalon, de 1999.)

Mas é mais provável que ela tenha sido o centro de uma comunidade de mulheres devotadas a pregar os valores de seu filho. Esses grupos de fato existiram nessa época, e as mulheres eram centrais nos movimentos cristãos primitivos na Palestina. 

A visão de Maria como uma importante pregadora dos ensinamentos do seu filho é bem aceita. 

Ela contribuiu muito para que o projeto de Jesus fosse levado em frente, e ainda hoje continua com sua missão de evangelizadora procurando que sempre mais pessoas conheçam seu filho. 

(A família de Jesus, que participou de sua missão de trazer uma nova teologia para mundo, foram os responsáveis em manter viva a chama do Mestre. Maria e Tiago foram personagens importantes nesse momento crítico de implantação de uma nova fé. Acima, documentário A Vida dos Apóstolos, do canal privado National Geografic, de 2013.)

A família de Jesus tornou-se importante depois que ele desapareceu porque os parentes agiam como continuadores da sua obra. 

Não há dados históricos sobre a morte de Maria...

Algumas citações apócrifas registram que ela morreu em Éfeso, onde os cristãos eram perseguidos. Ela estava presente onde a igreja estava. Era uma fortaleza de consolo e convicção para os apóstolos. 

Apesar da ausência de informações precisas, pesquisas indicam que Maria tenha morrido por volta de seus 50 anos - dada a expectativa de vida na época, essa era a idade de uma anciã. 

O proto evangelho, porém defende que Maria não morreu - foi "transportada ao paraíso" de corpo e alma, verdade de fé assumida pelos católicos. 

(Acima, o sepulcro vazio de Nossa Senhora, guardado e construído pela igreja ortodoxa católica, no vale de Cedrom em Jerusalém.)

Não se sabe onde aconteceu sua morte (ou assunção). As hipóteses mais prováveis são as cidades de Jerusalém (onde há um mausoléu com a tumba de Maria) e Éfeso.


Manifestações como Prova de Amor

Muitos acreditam que Maria tem aparecido a fiéis de vários lugares do mundo como demonstração de amor à humanidade. 

Na contabilidade popular, as aparições da mãe de Cristo somam mais de mil...

Para o Vaticano, apenas 7 são legítimas:

Rue du Bac - Paris, França, 1830.

Salette - França, 1846.

(Acima, um lindo filme que conta a história da menina e devota Bernadette Soubirous, beatificada, que presenciou várias aparições de Maria no ano de 1858. Um enorme reboliço ocorreu na vida simples e campesina de Lourdes e na política da França... Acima, filme Bernadette, de 1988.)

Lourdes - França, 1858.

Pontmain - França, 1870.

Fátima - Portugal, 1917.

Beauraing - Bélgica, 1932-1933.

Banneux - Bélgica, 1933.

E o que dizer sobre esse fenômeno?

Do ponto de vista psicológico, nossa tendência é projetar no externo o que está dentro de nós. Como a imagem da Grande Mãe está dentro do homem, ele vai projetá-la num vidro, no céu, em vários lugares... A teologia católica, porém tem outra explicação:

(Já a aparição em Fátima foi mais polêmica e ocorreu num momento muito crítico da história mundial. Alguns asseveram ter sido uma farsa com provas, outros, um fato real... O filme acima tenta remontar esse momento misterioso de Maria nos tempos modernos contado por Lúcia, uma das três crianças que podiam ver a Mãe de Jesus. Acima, Fátima - O Filme, de 1997.)

"A aparição é uma graça que Deus concede a algumas pessoas. São revelações interiores que, de tão profundas, acabam projetadas para fora."

O Vaticano recomenda prudência na avaliação das novas visões de Maria. Este é um campo minado por muitas fraudes, patologias, sugestões individuais ou coletivas. Somente depois de muita investigação é que a Igreja declara que uma determinada aparição de Maria é verdadeira ou não. 

Mesmo assim, é comum que autoridades eclesiásticas locais - como padres e bispos - não esperem pelo reconhecimento da Santa Sé e apoiem a manifestação dos fiéis. 

Nos últimos dois séculos, um padrão comum marca as aparições: Nossa Senhora aparece para grupos de mulheres ou crianças, geralmente marginalizadas e moradores do campo. 

(Essas aparições e milagres já deram tanto "pano prá manga" que virou até série americana. Polêmico e sensacionalista, faz a gente refletir: Será que esses fenômenos são reais mesmo? Acima, série Miracles, no Brasil Milagres: Entre o Céu e o Inferno, produzido pelo canal americano ABC, 1ª temp. 3º cap., de 2003.) 

Nas aparições, Maria costuma pedir três coisas aos fiéis: oração, conversão e penitência. 

São mensagens simples... Pede que as pessoas mudem de vida para a religião, pede reza, penitência, jejum, penitência pelos pecados. A mensagem é muito oportuna para o nosso mundo.

Mãe é sempre um elemento sábio mesmo... Sempre aconselha sobre coisas simples e essenciais... 

Esse padrão de pedidos simples de Nossa Senhora se repetiu até a última década de 80, quando houve a primeira aparição de Medjugorje, na Bósnia, ainda sob análise do Vaticano. De acordo com ele, as aparições podem ser tomadas como uma reação ao poder masculino dento da Igreja: O clero é racionalizado, pouco afetivo. As aparições trazem uma religiosidade mais protetora, mais acolhedora...


Maria para Todos os Credos

O amor, a tolerância e a humildade, traços associados ao caráter de Maria, não são exclusividade das religiões cristãs. Talvez, por isso, a mãe de Jesus encontre lugar cativo em crenças tão diferentes, como o Candomblé e o Islamismo.

Para os católicos, Maria é a Virgem Santíssima.

A relação dos fiéis com ela encaixa-se na hiperdulia, um estágio entre a veneração, prestada aos santos, e a adoração, reservada apenas para Deus. 

Os cristãos ortodoxos também lhe guardam devoção especial - mas não creem nos dogmas marianos nem usam várias denominações para Nossa Senhora, como os católicos. Há sempre a Theotokos, a mãe de Deus!


(Por que os evangélicos não creem em Maria?! - O youtuber Alcino Juliano Dadam Lopes vai tentar explicar...)

Os evangélicos são um pouco mais distantes.

Para eles ela foi uma santa, mas não é intercessora nem mediadora.

Os evangélicos consideram que Maria não permaneceu eternamente virgem e não creem no seu poder de intercessão e não oram a ela. Os protestantes concordam. Para eles a concepção de Cristo no ventre de Maria não a fez virgem para sempre. 

Na teologia protestante, Maria é modelo de fé, de piedade e de ação cristã, mas não pode ser colocada como mediadora, redentora nem como aquela que interpela a Deus em favor dos fiéis. 

No Espiritismo, o dogma e os rituais marianos são deixados de lado. 


(Acima, entrevista com Silvania Eleusa de Centro Espírita de Goiânia que conversa sobre este tema. Acima, canal do Youtube TV Espiritismo, de 2015.)

Espiritismo é ciência. É uma vertente cristã que tenta se apoiar em fatos concretos e intelectuais, apesar de que muitas de suas práticas sejam difíceis de serem explicadas nesta base... O Espiritismo não se prende a dogmas nem aceita a quebra da lógica e da racionalidade. 

Mas não resta a menor dúvida que Maria foi, e é, um espírito superior. 

A importância de Maria, uma judia, no Islamismo, surpreende!

Entre todas as mulheres, ela é considerada a mais elevada, afirmam os muçulmanos.


(Maria para os muçulmanos. Uma tentativa do islã de pregar a paz entre as crenças... Louvável! Veiculado pela adolescente youtuber Sacchapyar, de 2012. É necessário desmistificarmos a ideia que todo muçulmano não entende ou é intolerante para com o cristianismo e outras teologias.)

No Corão, Maria é a única mulher a ter seu nome pronunciado e a ter sua biografia contada no livro sagrado: Maryam, capítulo 19.

Maria é mais citada que a mãe do profeta Muhammad. Ela é, por excelência, o modelo de mulher. 

Nas religiões de origem africana, como Umbanda e Candomblé, marcadas pelo sincretismo, Maria é cultuada como Iemanjá.

Segundo uma das tradições míticas, Iemanjá foi desposada por seu irmão Aganju e deste casamento nasceu Orungã. 

Orungã, na ausência do pai, raptou e violou Iemanjá e dessa relação nasceram muitos outros orixás. Por isso, é dado a Iemanjá o título de Mãe dos Orixás. 

Enquanto que para os cristãos a maternidade de Maria ocorreu sem ato sexual, para a tradição iorubá a maternidade de Iemanjá é fruto de um estupro... Contudo, elas são cultuadas e reverenciadas, sendo idealizadas pelo fruto divino de seus ventres. 


(Para o Judaísmo, Maria é vista como uma mulher normal e cumpridora das tradições de seu povo. Acima, cenas da A Paixão de Cristo, de 2004.)

Entre os judeus, Maria é uma típica mãe judia como qualquer outra...

A ideia de que alguém possa conceber um filho de Deus é totalmente estranha ao Judaísmo. 

De acordo com a doutrina judaica, Jesus foi um homem comum, nascido naturalmente de uma mulher, como todos nós!



Como Surgiu a Ave-Maria?

Uma das preces mais populares entre os católicos, a ave-maria é uma colagem de trechos da Bíblia somados à tradição popular. 


Ave, Maria
Cheia de graça...
O Senhor é convosco!

Os primeiros versos foram tirados da fala do anjo Gabriel a Maria quando foi anunciar à Virgem que ela ficaria grávida do Senhor.

"E, entrando o anjo aonde ela estava, disse: Alegra-te, muito favorecida! O Senhor é contigo."
Evangelho de São Lucas 1:28


Bendita és tu entre as mulheres...
E bendito é o fruto do teu ventre, Jesus!

Esse trecho também está em Lucas, mas foi pronunciado por Isabel, que recebeu Maria durante a gestação. A invocação, incluindo o nome de Maria, ocorreu por volta do século 7, da mesma forma a inclusão do nome de Jesus: "bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus!"

"E [Isabel] exclamou em alta voz: Bendita és tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre."
Evangelho de São Lucas 1:42



Santa Maria, Mãe de Deus, 
Rogai por nós, pecadores,
Agora e na hora de nossa morte...

O trecho final, produto da tradição popular, foi acrescentado no século 14. Mas a invocação a Maria como mãe de Deus, já existia muito cedo na Igreja, como na oração Sub tuum praesidium, de um antigo papiro do século 4 encontrado no Egito. 

(Um dos mistérios mais intrigantes na história da arte sacra... Franz Schubert, compositor austríaco, escreveu esta canção, não para Maria, mas para um outro ícone tão importante para os maçons e cheio de mistérios, que somente os iniciados podem compreender: A Dama do Lago. Participante de um ciclo de poemas escritos para o épico Arturiano, Schubert motivou-se a escrever essa canção pela amizade a Walter Scott. Novamente, movidos pela ignorância, muitos católicos adotaram a canção e a letra de Schubert como uma forma de louvar Maria. A letra é belíssima sem dúvida, porém foi alterada pela igreja católica, contudo, dedicá-la a outro ícone feminino, para nós, não interfere em nossas crenças... Acima, Ave Maria, na melodia de Schubert, na performance do Tenor e Barítono Andrea Bocelli.)

O trecho final é mais espontâneo. É como se a gente dissesse: "Já que a senhora é tão boa, rogue por mim...!"

A fórmula definitiva da oração foi aprovada pelo papa Pio V. 



Fim.:.

    

In Memorian

Este estudo é dedicado a um casal muito amado por seus amigos e familiares: Sr. Guilherme Marques do Espírito Santo e Dna. Maria dos Santos Marques - que a luz de todas as grandes mães da História acompanhem vocês em vossa jornada espiritual. Descansem em paz...



Referências Bibliográficas

Livros

O Cotidiano de Maria de Nazaré, de Clodovis Boff, ed. Salesiana, 2003.

O Evangelho Secreto da Virgem Maria, de Santiago Martin, ed. Mercuryo/Paulus, 1999.

Mãe, a História de Maria, de Júlia Bárány (org.), ed. Mercuryo, 2003.

Maria, Uma Biografia, de Lesley Hazleton, ed. Universidade Hebraica de Jerusalém, United Kingdom, England, 2007.

Maria Entre os Vivos, de Carlos Alberto Steil, Cecília Loreto Mariz e Mísia Reesink, ed. da UFRGS, 2003.

Maria no Islã, de Roberto Khatlab, ed. Ave Maria, 2003. 

Revista Eclesiástica Brasileira, edição 250, ed. Abril, 2003.

Revista Teológica, do Instituto Teológico Franciscano, ed. Vozes, 2003.

Sites

www.marylife.org

www.apparitons.org

www.santuario-fatima.pt

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Maria, a Face Feminina de Deus - Parte 5

(Maria se despede de nós silenciosamente... Tão misteriosamente, que os primeiros cristãos não tiveram outra alternativa do que acreditar que ela fora elevada ao céu... Assim, surge a doutrina da Assunção de Nossa Senhora.)

Maria despede-se da Bíblia discretamente, num trecho de Atos dos Apóstolos que relata sua presença numa reunião dos apóstolos com as mulheres.

"Todos estes perseveravam unânimes em oração, com as mulheres, estando entre elas Maria, mãe de Jesus e com os irmãos dele."
Livro Os Atos dos Apóstolos 1:14

Pouco se sabe sobre o que teria ocorrido a ela depois...

Mesmo sem respaldo nos evangelhos, a Igreja Católica confirmou o dogma da Assunção, decretando que Maria não morreu - foi levada, de corpo e alma, aos céus. 

(As cruzadas foram uma forma de conter os invasores do leste que ameaçavam tanto a Europa como a nova fé cristã. Acima, cenas do filme Cruzada, de Ridley Scott, de 2005.)


(São Bernardo, um abade francês (1090-1153) foi um cisterniense que engajou-se numa única tarefa: inflamar os corações dos lordes europeus para lutarem pela liberdade de Jerusalém e de Maria. Com visão no céu , mas também na terra, muitos nobres empreenderam uma difícil tarefa de defender as fronteiras da fé por alguns dobrões de ouro.)


(Nesta tarefa, situações misteriosas aconteceram: Muitos europeus foram apresentados a uma teologia completamente nova para eles: A Cabala. A mistura dos conhecimentos druídicos europeus com a Cabala mística judaica, fez nascer, inesperadamente, os Templários. Mistérios e conspirações, então, nasceram de uma ordem que só tinha um único objetivo: Proteger os verdadeiros servos (ou filhos?) de Deus. Acima, cenas do filme O Código Da Vinci, de Ron Howard, de 2006.)

Apesar das poucas citações bíblicas, a figura mariana cresceu em importância com a expansão do Cristianismo. No fim da antiguidade, muitos fiéis invocavam a proteção de Nossa Senhora durante as invasões bárbaras. Mas quem difundiu mesmo a devoção a Maria pela Europa foi São Bernardo, no século 12. A partir daí, é que foram construídas as grandes catedrais marianas.

Nossa Senhora ou Notre Dame, Madonna, Our Lady, é hoje o segundo maior símbolo cristão, atrás apenas da cruz. 

(Dentre outras catedrais medievais, Notre Dame, na França, é o ápice da arte sacra e gótica. Envolta em mitos, a catedral possui em sua arte conhecimentos místicos, cabalísticos e alquímicos, provavelmente, idealizados pelos templários que financiaram sua construção em 1163. Grande estudioso do assunto, Fulcanelli (1839-1923), deixou um amplo estudo sobre isso em suas obras Os Mistérios das Catedrais (1926) e As Mansões Filosofais (1930), que não podem faltar numa estante, minimamente descente, do estudante sobre o assunto.)


(Victor Hugo (1802-1885), escritor e muitas outras coisas, escreveu numa das obras mais enigmáticas da literatura francesa: O Corcunda de Notre Dame. Na obra Victor deixou pistas e símbolos disfarçados nos personagens sobre a magia, religião e cabala. Acima, cenas do filme O Corcunda de Notre Dame, de 1997.)

Não é à toa que as Nossas Senhoras se multiplicaram, ganharam inúmeras faces e somam mais de mil denominações. 

Nos séculos 19 e 20, o culto ganhou novo impulso, com as aparições e com as novas verdades de fé declaradas pela Igreja Católica. Além dos dogmas mais antigos:

- Maternidade Divina - Concílio de Éfeso, em 431
- Virgindade Perpétua - tradição cristã
- Imaculada Conceição - Papa Pio IX, 1854
- Assunção - Papa Pio XII, 1950

Não é difícil encontrarmos fiéis que amem e venerem Nossa Senhora como a Jesus Cristo - o apego à "mãe querida" cresceu tanto que seu status quase se iguala ao de uma deusa. 

Por baixo do pano, Maria é uma "deusa oculta" do Cristianismo. 

(Na obra célebre de Marion Zimmer Bradley, a série de livros As Brumas de Avalon, tenta refazer os passos numa visão celta da Deusa Mãe que se transformou na Mãe de Deus. Acima, cenas do filme As Brumas de Avalon, de 1999.)

Doutrinariamente, é errado adorar Maria, só se pode adorar a Deus. Mas, a linguagem do afeto é sempre exagerada...

De fato, em algumas culturas, o carisma de Maria tornou-a a personagem perfeita para substituir as deusas reais de religiões primitivas.

Dados arqueológicos, confirmados pela Antropologia e História das Religiões, comprovam a presença de deidades femininas desde a era paleolítica.

(A deusa Ísis amamentando seu filho Hórus, uma cena que é tão importante na arte sacra humana, que a própria igreja católica se apropriou dessa representação para identificar Maria.)

Os exemplos vão da deusa egípcia Ísis (3.000 a.C.) à babilônica Ishtar (2.000 a.C.), passando pela chinesa Kwan'nin - todas representantes da tradição maternal. 

O culto à Virgem continua muito forte porque ele representa o arquétipo da Grande Mãe. 

Na psicologia, arquétipos são padrões de comportamento coletivo comuns a toda a humanidade.

(Virgem, Maria?!? - Talvez não... Um estudo mais atualizado sobre o uso dos verbetes hebraicos Almah e Bethulah que aparecem na Bíblia, não poderiam ser traduzidos, em Isaías 7:14 como "virgem": "Uma virgem dará a luz...", a tradução correta seria: "Uma jovem dará a luz...")

Nessas crenças matriarcais, acreditava-se que o poder da procriação estava apenas nas mãos das mulheres - o papel do homem na reprodução era desconhecido. 

A função do arquétipo da Grande Mãe ou a Mãe Natureza é ser responsável pela alimentação, calor e proteção. Mesmo com a preponderância do Deus criador (geralmente tido como masculino) no Judaísmo, a Grande Mãe continua presente nas Nossas Senhoras e, por que não, em Cristo. 

Maria transmitiu algumas características femininas a Jesus: a misericórdia, a compaixão, a capacidade de perdoar e de amar. 

Nessa associação como as deusas matriarcais, Nossa Senhora tornou o Cristianismo mais acolhedor. Maria foi substituindo as deusas antigas. Isso permitiu que o Cristianismo penetrasse em outras culturas com certa facilidade. 

(Nossa Senhora Aparecida que participa de um ciclo misterioso das Nossas Senhoras Negras, é o rosto brasileiro de amor, compaixão e abnegação... Essas personagens são muito antigas e na Europa foram encontradas mais de 400 representações dessa antiga deusa que se transformou em Maria, a mãe de Jesus.)

O que há de mais especial sobre Maria para os fiéis é justamente o conforto de encontrar nela várias faces: ora a mulher doce e cheia de compaixão, ora a mãe forte e corajosa que está ao lado do filhos em seus momentos mais críticos. 

Um raro exemplo de amor incondicional que nada pede em troca...


Continua...



quarta-feira, 29 de junho de 2016

Maria, a Face Feminina de Deus - Parte 4

(A Pietà mais famosa dentre muitas outras, feita pelo artista illuminati Michelangelo, representa o pior momento vivido por Maria... Exposta na Basílica de São Pedro e criada no período de 1498 a 1499, é uma das mais controversas esculturas do tempo medieval: A mulher aqui, seria realmente Maria, a mãe de Jesus? Teorias embasadas por pesquisas arqueológicas e artísticas, pequenas pistas no modelo de argila e escritos deixados pelo artista Michelangelo levam muitos doutores em História, Teologia e Arte teorizarem que esta mulher pode ser Maria Madalena, como uma forma de afrontar a Igreja Católica.)


(Documentário O Lado Obscuro de Michelangelo produzido pelo canal privado National Geografic em 2012.)

Quarenta dias depois, Maria e José levaram Jesus a Jerusalém, para apresentá-lo ao Senhor conforme a lei judaica.

Lá, um sábio chamado Simeão, de acordo com o evangelista Lucas, diz que uma espada transpassaria a alma de Maria - um sinal do sofrimento futuro que ela compartilharia com o filho.

"Completados oito dias para ser circuncidado o menino, deram-lhe o nome de Jesus, como lhe chamara o Anjo, antes de ser concebido

["Ela dará à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles." - O Anjo Gabriel para José em sonho.]
Evangelho de São Mateus 1:21

"Passados os dias da purificação deles, segundo a lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém para o apresentarem ao Senhor... 

(Dentre muitas outras, a Madona nas Rochas é, sem dúvida, uma das pinturas mais enigmáticas de Da Vinci. Feita em dois momentos distintos, o pintor "açucarou-a" a pedido da Confraria da Imaculada Conceição, na França, em 1483-1486. Perturbadas com a cena da primeira pintura, as freiras pediram para que Da Vinci suavizasse-a. Na primeira pintura Maria surge com uma mão em garra atacando a cabeça de Jesus, e o anjo Uriel ao lado apontando para João Batista que suplica algo para Jesus, claramente indicando que Jesus deve obedecer ao que se pede. Na segunda pintura à direita, a cena foi completamente alterada, inclusive as expressões faciais dos personagens. Ele era um maçom de 3ª Ordem e, portanto, qualquer tipo de devoção a Jesus era uma propaganda para a Igreja Católica, algo inadmissível para as sociedades secretas da época.)

["Fala aos filhos de Israel: Se uma mulher conceber e tiver um menino, será imunda sete dias; como nos dias de sua menstruação será imunda. 
E no oitavo dia se circuncidará o menino a carne do seu prepúcio. Depois ficará ela trinta e três dias, a purificar-se do seu sangue; nenhuma coisa santa tocará, nem entrará no santuário até que se cumpram os dias da sua purificação. Mas, se tiver uma menina, será imunda duas semanas, como na sua menstruação; depois ficará sessenta e seis dias a purificar-se do seu sangue. E, cumpridos os dias da sua purificação por filho ou filha, trará ao sacerdote um cordeiro de um ano por holocausto, e um pombinho ou uma rola por oferta pelo pecado à porta da tenda da congregação..."]
Livro de Levíticos 12: 2-6

"...conforme o que está escrito na Lei do Senhor: Todo primogênito ao Senhor será consagrado; 

["Consagra-me todo primogênito; todo que abre a madre de sua mãe entre os filhos de Israel, assim de homens como de animais, é meu."]
Livro de Êxodo 13:2

"...e para oferecer um sacrifício, segundo o que está escrito na referida lei: Um par de rolas ou dois pombinhos."


(A oferta de duas rolinhas (pombos selvagens) só era permitida para pessoas muito pobres... Era a oferta mínima que o sacerdote poderia admitir para a consagração de qualquer coisa... Os primeiros meses da vida do casal José e Maria foram muito difíceis... "Se as suas posses não lhe permitirem trazer um cordeiro, trará como oferta pela culpa que cometeu, duas rolas, ou dois pombinhos; um como oferta pelo pecado, e o outro como holocausto." - Livro de Levíticos 5:7. Acima, cenas A Vida do Messias, da emissora RS 21, canal cristão.)

"Havia em Jerusalém um homem chamado Simeão, homem este justo e piedoso que esperava a consolação de Israel; e o Espírito Santo estava sobre ele. Revelara-lhe o Espírito Santo que não passaria pela morte antes de ver o Cristo do Senhor

"Movido pelo Espírito foi ao templo; e, quando os pais trouxeram o menino Jesus para fazerem com ele o que a lei ordenava, Simeão o tomou nos braços e louvou a Deus, dizendo:

(Acima, pintura do renascentista espanhol Juan de Juanes, que mostra Maria Madalena grávida. Sim, essa história de Jesus e Maria Madalena terem sido marido e esposa já acontecia à boca pequena entre as sociedades secretas há centenas de anos... Acima, a pintura confeccionada entre 1500 a 1579, se encontra na Catedral de Saint Peter, na França.)

"Agora, Senhor, despede em paz o teu servo, segundo a tua palavra; porque os meus olhos já viram a tua salvação, a qual preparaste dante de todos os povos; luz para revelação aos gentios e para glória do teu povo de Israel

"Simeão os abençoou e disse a Maria, mãe do menino: Eis que a este menino está destinado tanto para ruína como para levantamento de muitos em Israel, e para ser alvo de contradição, também uma espada traspassará a tua própria alma, para que se manifestem os pensamentos de muitos corações."
Evangelho de São Lucas 2:21-32 e 34, 35

O Evangelho de Mateus conta que, na sequência, um anjo aparece a José e recomenda que fujam para o Egito - o rei Herodes procurava o menino Jesus, tido como o Messias, para matá-lo. 


(Após a visita dos três magos à José e Maria, os magos, assediados por Herodes, confessam sobre o nascimento, finalmente, do Messias judeu. Após isso, um desenrolar de eventos confusos e misteriosos ocorrem na vida Jesus e de sua família...: "Entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, o adoraram; e, abrindo os seus tesouros, entregaram-lhe suas ofertas: ouro, incenso e mirra. Sendo por divina advertência prevenidos em sonhos para não voltarem à presença de Herodes, regressaram por outro caminho à sua terra." - Evangelho de São Mateus 2:11-12. Acima, cenas do filme Maria, a mãe de Jesus, de 2010. )


(É aqui que se compreende o misterioso e desconcertante comportamento de Jesus: Como ser um Messias curador, profeta e encantador de espíritos?! Um vácuo de 12 anos na vida de Jesus definiram, para sempre, esse indivíduo, norteando-o a partir dali todos os seus passos e destino: "...eis que aparece um anjo do Senhor a José em sonho, e diz: Dispõe-te, toma o menino e sua mãe, foge para o Egito, e permanece lá até que eu te avise; porque Herodes há de procurar o menino para o matar... e lá ficou até a morte de Herodes, para que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor, por intermédio do profeta [Oséias 11:1]: Do Egito chamei o meu Filho." - Evangelho de Mateus 2:13, 15. Acima, cenas do filme O Jovem Messias, de 2016.)

O vaivém constante e os perigos que envolviam sua esposa e seu filho atormentavam José.

Segundo o texto apócrifo atribuído à Maria, na fuga para o Egito, ela confortou o marido: 

"Peço que te tranquilizes e que estejas seguro de que nem no Egito nem em qualquer outro lugar Deus deixará de proteger-nos, ainda que tenhamos de fugir até o fim de nossos dias."
Evangelho Apócrifo da Virgem Maria 3:5

Apesar de marinheira de primeira viagem, Maria assumia o papel que lhe estava reservado por Deus: a de ser mãe não só de Jesus, mas de toda a humanidade. É essa característica que arrebata o coração dos fiéis até hoje. 

(A partir de 1400 representar as principais Marias da história de Jesus se tornou um problema... O Vaticano interviu, pois ficava claro que as pinturas eram a principal forma de muitos artistas exporem suas ideologias místicas e propagar teologias condenadas pela Igreja. Assim é que, se estabeleceu no Concílio do Vaticano que Maria deveria ser representada sempre com túnica azul e vestido interno branco, cabelos loiros ou castanhos e como uma adolescente. No Concílio de Éfeso, 431 d.C, Maria deveria ser sempre representada sentada amparando o bebê  Jesus em seu regaço. Acima, Conestabile Madonna, do pintor renascentista Rafael, de 1504.)

(Maria Madalena, sempre confundida nas pinturas com Maria, mãe de Jesus, foi usada como um meio de disseminar uma ideia que até hoje causa náuseas em muitos cristãos: ser a esposa de Jesus. Foi decidido pelo Vaticano que sua representação deveria ser completamente oposta: Uma mulher adulta, sempre triste evidenciando seu arrependimento, com cabelos negros, pois na Idade Média até a Idade Moderna era uma representação de mulheres inconstantes e confusas como as ciganas. Ela deveria usar túnica verde e vestido interno vermelho. Portugal adotou essas duas cores para representar as cores de seu país, não precisamos dizer que a família real portuguesa era assumidamente maçom de 3ª Ordem. Na Baixa Idade Média, começa haver representações de Maria Madalena como ruiva, indicando sua inconstância, já que mulheres que continham essa cor de cabelo eram prostitutas... Acima, Maria Madalena, de Giovanni Bellini, pintor renascentista, de 1430-1516. Evidentemente ele se recusa a seguir as regras católica: Maria Madalena é uma adolescente, as mãos cruzadas sobre o peito é sinal de proteção e de não-violação, transmitindo a mensagem de sua pureza e integridade, seus cabelos são loiros.)


(Uma das pinturas mais controversas e enigmáticas da Arte Sacra: Maria Madalena, de George de La Tour, pintor barroco francês, de 1593-1652. Aqui, elementos claramente maçônicos aparecem: O espelho, a vela e a caveira, a cabeça de João Batista e Maria Madalena exibindo sua gravidez. Mais uma vez, a pintura é usada como um meio de propagar doutrinas de sociedades secretas. Essas poucas representações marianas mostram, dentre tantas outras, a massiva propaganda maçônica na Idade Média.)

Maria é identificada como uma mulher simples do povo. Ela acabou ocupando o papel de nossa mãe, irmã, amiga compreensiva e companheira de luta. 

Os evangelhos praticamente ignoram a infância e a adolescência de Jesus - período em que os relatos sobre sua mãe também desaparecem. 

A exceção fica por conta de Lucas, que relata um episódio em que Jesus, aos 12 anos, visita o templo de Jerusalém e perde-se dos pais. É um dos raros trechos em que é dada voz à Maria.

"Crescia o menino e se fortalecia, enchendo-se de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele.  Ora, anualmente iam seus pais à Jerusalém, para a festa da páscoa. Quando ele atingiu os doze anos, subiram, segundo o costume da festa. Terminados os dias da festa, ao regressarem, permaneceu o menino Jesus em Jerusalém, sem que seus pais o soubessem.

"Pensando, porém, estar ele entre os companheiros de viagem, foram caminho de um dia, e então passaram a procurá-lo entre os parentes e os conhecidos; e não o tendo encontrado, voltaram a Jerusalém à sua procura

"Três dias depois o acharam no templo, assentado no meio dos mestres, ouvindo-os e interrogando-os. E todos os que o ouviam muito se admiravam de sua inteligência e das suas respostas

(Como um adolescente conseguiu a atenção de velhos mestres e estudiosos? Sendo mais sábio que eles! Como?! Isso é um dos muitos mistérios de Jesus. Acredita-se que Jesus foi um dos muitos iniciados do antigo Egito. Estudos modernos sobre os livros apócrifos embasam essa teoria: Jesus e Maria, sua mãe, teriam sido iniciados, provavelmente, da seita dos Essênios, nome que provém de esays (trad. terapeuta em sírio), conforme estudos de Èdouard Shuré, Harvey Spencer Lewis e G. Lankaster Harding. Acima, cenas do filme Maria, a mãe de Jesus, de 2010.)

"Logo que seus pais o viram, ficaram maravilhados; e sua mãe lhe disse: Filho, porque fizeste assim conosco? Teu pai e eu, aflitos, estamos à tua procura

"Ele lhes respondeu: Por que me procuráreis? Não sabíeis que me cumpria estar na casa de meu Pai?"
Evangelho de São Lucas 2:40-49

Passam-se os anos...

Maria só volta a aparecer quando Jesus começa a realizar sua obra. No primeiro de seus milagres, Jesus transforma água em vinho a pedido de sua mãe. 

À medida que a crucificação se aproxima, as menções bíblicas a Maria escasseiam ainda mais...

Durante a pregação de Jesus, segundo o manuscrito apócrifo, Maria acompanhava à distância, mas mantinha diálogos com o filho e recebia insultos e ofensas dirigidos a Jesus.

"Eu havia prometido que, acontecesse o que acontecesse, nunca deixaria de estar tranquila, não perderia a paz e a confiança em Deus."
Evangelho Apócrifo da Virgem Maria 4:2

Mas o sofrimento do filho repercutia em seu coração - tal como havia profetizado Simão.

"Senti em minha própria pele o beijo da traição de Judas."
Evangelho Apócrifo da Virgem Maria 5:7

Na hora da morte de Jesus, o Evangelho de João registra sua presença ao pé da cruz. 


(Um dos momentos mais difíceis de ler, tanto na história de Jesus como na história de Maria... O distanciamento de um filho numa morte tão terrível... Como continuar depois disso?! A fé de Maria a preservou... Acima, cenas do filme A Paixão de Cristo, de Mel Gibson, de 2004.)

"E junto à cruz estavam a mãe de Jesus, a irmã dela, e Maria mulher de Clopas, e Maria Madalena.

"E vendo Jesus sua mãe, e junto a ela o discípulo amado [o próprio João], disse: Mulher, eis aí o teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. Dessa hora em diante o discípulo a tomou para casa."
Evangelho de São João 19:25-27

É a senha de Jesus para que Maria assuma a maternidade de todos os seus discípulos. 

Não foi registrado nenhum momento de amargura ou desespero de sua parte. Maria enfrentou o que nenhuma mãe poderia enfrentar com firmeza. Ela é nosso exemplo de humildade, desprendimento, santidade e submissão a Deus. 

Seu exemplo maior foi ter sido a primeira pessoa a "aceitar Jesus", após o anúncio do anjo, arcando com todas as consequências. 

(Outro momento turbulento e de difícil esclarecimento: Como foram os 2 meses após a morte do Messias. Pesquisando as escrituras conseguimos fazer uma pequena e parca sequência de acontecimentos... Mas, Maria, desaparece... O último versículo bíblico que fala de Maria é em Atos dos Apóstolos que mostraremos na próxima semana. Confira ao final desta postagem um apêndice da sequência de acontecimentos após a morte de Jesus. Acima, trailer do filme Ressurreição, de 2016.)

Durante a ressurreição de Jesus, novamente silêncio sobre o paradeiro de sua mãe. 

No manuscrito apócrifo, Maria conta que recebeu seu filho ressuscitado no quarto onde dormia, e numa reunião com os apóstolos. 

"Queria ir até ele, abraçá-lo, como na noite anterior, porém compreendi que minha presença ali devia passar despercebida, como durante toda minha vida."
Evangelho Apócrifo da Virgem Maria 7:2



Apêndice A: Sequência de Eventos Após a Crucificação

1 - Ressurreição de Jesus ao nascer do sol. - Mt. 28:2-4

2 - As mulheres chegam com especiarias, e encontram o sepulcro aberto e vazio. Maria Madalena volta para contar isto a Pedro e a João. - Mt. 28:1; Mc 16:1-4; Lc 24:1-3; Jo 20:1-2

3 - Outras mulheres, que permanecem, veem dois anjos que proclamam a ressurreição de Jesus. - Mt 28:5-7; Mc 16:5-7; Lc 24:4-8

4 - Maria Madalena volta ao sepulcro. Jesus se revela. Ela relata isto aos discípulos - 1ª Aparição - Mc 16:9-11; Jo 20:11-18

5 - Jesus encontra-se com as mulheres: Maria, mãe de Tiago, Salomé e Joana, quando retornam à cidade. - 2ª Aparição - Mt 28:8-10; Mc 16:8; Lc 24:9-11

6 - Pedro e João encontram o sepulcro vazio. - Lc 24:12; Jo 20:3-10

7 - Relatório dos guardas às autoridades judaicas que os subornam para que não contem nada. - Mt 28:11-15

8 - Jesus é visto por Pedro. - 3ª Aparição - 1Co 15:5

9 - Jesus é visto por dois discípulos no caminho de Emaús. - 4ª Aparição - Mc 16:12-13; Lc 24:13-35

10 - Jesus aparece a dez discípulos, estando Tomé ausente. - 5ª Aparição - Mc 16:14; Lc 24:36-49; Jo 20:19-23

11 - Na noite de domingo, seguinte à Páscoa, Jesus aparece a eles, outra vez, estando Tomé presente. - 6ª Aparição - Jo 20:24-29

12 - Os Onze discípulos vão à Galiléia, a um monte que lhes fora determinado para uma reunião urgente entre eles. Jesus aparece e lhes ordena que preguem à todas as nações. - 7ª Aparição - Mt 28:16-20; Mc 16:15-18

13 - Jesus aparece no mar de Tiberíades e encarrega Pedro de pastorear suas ovelhas (os novos cristãos) um pedido feito 3 vezes, e na terceira, Pedro acerta o tom e como deveria ser seu comportamento emocional. - 8ª Aparição - Jo 21:1-24

14 - Jesus foi visto por 500 pessoas de uma única vez, provavelmente com os onze apóstolos. - 9ª Aparição - Mt 28:16

15 - Visto por Tiago, depois por todos os apóstolos. - 10ª Aparição - At 1:3-8; 1Co 15:7

16 - Paulo vê também Jesus. - 11ª Aparição - 1Co 15:8 

17 - Sua Ascensão, quarenta dias (numa cronologia mais atualizada, 50 dias) após a Páscoa. - 12ª Aparição - At 1:9-12; Mc 16:19-20; Lc 24:50-53 


Continua...


sábado, 21 de maio de 2016

Maria, a Face Feminina de Deus - Parte 3

(Descobrir a verdadeira identidade de uma personagem tão central em meio as lendas e fantasias de uma história perdida e, contrapondo a ânsia em trazer para suas novas fronteiras, a certeza de uma Fé que dava seus primeiros passos no mundo, é quase uma missão impossível...)

Desde o momento em que Maria engravida, os fatos históricos perdem destaque para dar lugar aos dogmas teológicos que envolvem sua figura. 

Para os católicos, Maria foi concebida sem pecado: O Dogma da Imaculada Conceição, e manteve a pureza sexual durante a até mesmo depois do parto: A Virgindade Perpétua. 

Os protestantes relutam em aceitar tais doutrinas, lembrando que algumas traduções da Bíblia mencionam claramente os "irmãos" de Jesus. 

"Vieram ter com ele sua mãe e seus irmãos, e não podiam aproximar-se por causa da concorrência do povo. E lhe comunicaram: Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e querem ver-te. Ele, porém, lhes respondeu: Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a praticam.
Evangelho de São Lucas 8: 19-21

"Não é este o filho do carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? Não vivem entre nós todas as suas irmãs? Donde lhe vem, pois, tudo isto?"
Evangelho de São Mateus 13:55

"Depois disto desceu ele para Cafarnaum com sua mãe, seus irmãos e seus discípulos; e ficaram ali não muitos dias."
Evangelho de São João 12:2

"Dirigiram-se, pois, a ele os seus irmãos, e lhe disseram: Deixa este lugar e vai para a Judeia, para que também os teus discípulos vejam as obras que fazes. Porque ninguém há que procura ser conhecido em público e, contudo, realiza os seus feitos em oculto. Se fazes estas coisas, manifesta-te ao mundo. Pois nem mesmo os seus irmãos criam nele..."
Evangelho de São João 7:3-5

"Mas, depois que seus irmãos subiram para a festa, então subiu ele também, não publicamente, mas em oculto."
Evangelho de São João 7:10

(Um dos temas que me fascinam no estudo da História Antiga e Medieval: as Legiões Romanas. Exemplo de liderança, comando, disciplina e estratégia, até os dias atuais, são um modelo para ataques e assaltos de Forças de Defesa modernas. Mas, no tempo de Jesus, ter uma força dessas comandando a política e a vida social de vilas e aldeias com uma cultura tão diferente era um problema potencial. A disciplina deveria ser mantida a todo custo, e conhecer o número e quais tipos de homens e mulheres que habitavam esses ajuntamentos era importante. Para o romano, o único ser humano que deveria ser respeitado e valorizado era o próprio romano. Acima, cenas da série Roma, produzido pelo canal privado HBO, de 2005.) 

"Todos estes perseveravam unânimes em oração, com as mulheres, estando entre elas Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos dele."
Livro dos Atos dos Apóstolos 1:14

"(...) e também o de fazer-nos acompanhar de uma mulher irmã, como fazem os demais apóstolo, e os irmãos do Senhor, e Cefas?"
1ª Epístola aos Coríntios 9:5

"(...) e não vi outro dos apóstolos, senão a Tiago, o irmão do Senhor."
Epístola aos Gálatas 1:19

A palavra "irmão" que aparece nos textos acima vem do grego adelphós, literalmente, "nascido do mesmo útero", não deixando nenhuma margem de dúvida quanto a origem desses indivíduos. Apesar disso, os dogmas católicos afirmam que essas passagens se referem a algum tipo de parentes próximos, como enteados ou primos de Jesus. 

Na cultura judaica, existe grande importância quanto a procedência da família, exatamente, para que todos se certifiquem que os indivíduos ali, de fato, sejam herdeiros das promessas e do sangue dos Patriarcas Abraão e Jacó. 

Os familiares de Jesus foram reconhecidos como legítimos filhos de Maria e irmãos de Jesus até mesmo pelos apóstolos. Entretanto, mesmo quando Pedro ou Paulo escreviam em suas epístolas, essa história havia decorrido um espaço de tempo de mais de 50 anos, podendo, muito do que foi registrado, ter sido apenas tradições orais. 


(Particularmente, eu não vejo nenhum problema em ver Maria como mãe de muitos outros filhos. Isso evidenciaria sua humanidade, e o esforço hercúleo em manter-se firme numa nova fé e perspectiva de Deus... Esse reconhecimento, apenas, enalteceria ainda mais essa mulher extraordinária!)

Não há solução para a polêmica da virgindade de Maria...

A Arqueologia, a Teologia e a Antropologia dão o xeque-mate, mas a tradição, as ideologias formadas em torno da fé individual e coletiva, a insistência da Igreja Católica em manter em suas linhas de defesa esses ensinamentos, impedem devidas e importantes revisões dos textos bíblicos, contra-argumentando que tudo é apenas uma questão de "crer ou não crer".

Entretanto, a opção católica por reforçar a virgindade de Maria servia como escudo contra os adversários do Cristianismo no século 1, que queriam provar a ilegitimidade de Jesus.

Muitos teólogos se apoiam em outros argumentos como afirmar que em outras referências, os vocábulos apresentados poderiam ser traduzidos como "primos" e, que por conta da grande mortalidade infantil da época, ter tantos filhos seria algo muito incomum. De fato... Isso, sim, seria um bom milagre para Maria...

É provável que a controvérsia sobre a virgindade eterna de Maria nem tenha sido tão intensa durante o tempo em que ela viveu, ou até mesmo, quando os primeiros escritos da Bíblia estavam sendo formulados, por isso, tantas controvérsias, pois se referiam apenas a dados biográficos, contudo, periféricos, sobre a vida de Jesus. 


(O mais legal e lôco da vida deste romano pagão e, depois, do cristão Santo Agostinho de Hipona (354-430) é que ele mesmo encarnou o que seriam os primeiros cristãos convertidos: pessoas hedonistas, com vidas entranhadas numa sexualidade perturbada e que, ao se converterem, repudiavam tudo, até mesmo o sexo e o casamento, exaltando o improvável, como uma concepção virginal. Toda essa metamorfose, de larva à borboleta, por assim dizer, fez parte das doutrinas e ensinamentos de Santo Agostinho. Para termos dados mais fidedignos é necessário rasparmos o remorso e o arrependimento de tudo o que ele viveu e escreveu... Acima, trailer do filme Santo Agostinho, de 2008. )

Na verdade, isso só começou a ter importância com Santo Agostinho, no início do século 5.

Ele via o ato sexual como impuro, por isso, sendo Jesus filho de Deus, não poderia ser ao mesmo tempo filho do pecado...

Mas, e Maria, o que achava de tudo isso?

Atenta à complicada situação, Maria meditava com frequência. 

Um manuscrito, também apócrifo, traz relatos atribuídos à própria Nossa Senhora em conversas com o apóstolo João. 

São reflexões da mãe de Jesus sobre os acontecimentos extraordinários que começaram a suceder em sua vida. 

"Quem, em seu juízo perfeito, teria escolhido por mãe uma pobre moça, filha de um artesão, em vez de buscar a proteção de uma família poderosa?

"O que os homens não valorizam, Deus escolhe. Ele escolhe os mais humildes para mostrar sua glória."
Evangelho Apócrifo da Virgem Maria

"Maria, porém, guardava todas estas palavras, meditando-as no coração.
Evangelho de São Lucas 2:19


(Mesmo vivenciando um período de vozes e visões, Maria, uma menina com experiência mística e espiritual, manteve-se firme e sóbria diante da avalanche de mudanças em sua vida. Mesmo para o mais experiente buscador espiritual, enfrentar um período de convocação, no qual aparições, sonhos e vozes atormentam a consciência do indivíduo é uma tarefa das mais difíceis... Acima, cenas de Jesus: A História do Nascimento, de 2006.)

Traços da personalidade da jovem também ajudam a entender a preferência divina. Maria era uma moça consciente, temente a Deus, que nunca colocou um obstáculo para que ele materializasse seu filho nela. 

"Então disse Maria: Aqui está a serva do Senhor; que se cumpra em mim conforme a tua palavra. E o anjo se ausentou dela."
Evangelho de São Lucas 1:38

Ela era religiosa da descendência de Arão, e frequentava a sinagoga local e o templo de Jerusalém, até mesmo porquê o esposo de sua prima era também um dos sacerdotes escalados para servir ao templo e a sinagoga local naquele tempo, tornando essa prática quase uma obrigação familiar.  

"Nos dias de Herodes, rei da Judeia, houve um sacerdote chamado Zacarias, do turno de Abias. Sua mulher era das filhas de Arão, e se chamava Isabel. Ora, acontecendo que, exercendo ele diante de Deus o sacerdócio na ordem do seu turno, coube-lhe por sorte, segundo o costume sacerdotal, entrar no santuário do Senhor para queimar o incenso; e durante esse tempo, toda a multidão do povo permanecia na parte de fora , orando. E eis que lhe apareceu um anjo do Senhor, e, de pé à direita do altar do incenso. (...) Disse-lhe porém, o anjo Gabriel: Zacarias, não temas, porque a tua oração foi ouvida; e Isabel, tua mulher, te dará à luz um filho a quem darás  nome de João."
Evangelho de São Lucas 1: 5 e 13

Maria não se abalou nem mesmo quando José, seu futuro marido, tomou conhecimento da gravidez e decidiu abandoná-la em segredo, para não comprometer sua honra. Um anjo apareceu em sonho para seu noivo e tirou as dúvidas do coração de José. 

(Houve 6 reis Herodes na história, e Herodes I participou dos eventos da vida de Jesus. Ele era um homem fraco, covarde e edomita, odiado pelos judeus por isso... Tinha um enorme medo de ser assassinado por descendentes do Rei Davi, a profecia sobre o Messias lhe dava pânico, decretou um infanticídio odioso nos tempos de Jesus, e morreu sendo um dos homens mais perversos da história. Acima, reportagem do Jornal Nacional, do canal público Globo, exibido em março de 2013.)

"Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Estando Maria, sua mãe desposada [o vocábulo deveria ser traduzido como noiva, mas esse laço social na cultura judaica não existe, havendo um tipo de pré-casamento, com exceção apenas do contato físico entre os cônjuges. O compromisso e legalidade do relacionamento é reconhecido publicamente como um casamento.] com José, sem que tivessem antes coabitado, achou-se grávida pelo Espírito Santo.

"Mas, José, seu esposo, não querendo infamar, resolveu deixá-la secretamente. Enquanto ponderava nestas coisas, eis que lhe apareceu em sonho, um anjo do Senhor, dizendo: José, filho de Davi, não temas receber, Maria, tua mulher, porque o que nela foi gerado é do Espírito Santo. (...) Despertado do sono, fez como lhe ordenara o anjo do Senhor, e recebeu sua mulher. Contudo, não a conheceu, enquanto ela não deu à luz um filho, a quem pôs o nome de Jesus."
Evangelho de São Mateus 1: 18-20, 24,25

Para fugir do diz-que-diz do povo da pequena Nazaré, que naquela época não contava mais que 300 moradores, Maria seguiu para a casa de sua prima. 


(Encontro de Isabel e Maria. Acima, cenas do filme Maria, a mãe de Jesus, de 2010.)

Segundo o Evangelho de São Lucas, o filho de Isabel, que também grávida, esperava, se remexeu em seu ventre e ela reconheceu em Maria a mãe do Messias.

"Naqueles dias, dispondo-se Maria, foi apressadamente à região montanhosa, a uma cidade de Judá, entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel. 

"Ouvindo esta a saudação de Maria, a criança lhe estremeceu no ventre; então Isabel ficou possuída do Espírito Santo. E exclamou em alta voz: Bendita és tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre. E de onde me provém que me venha visitar a mãe do meu Senhor? Pois, logo que me chegou aos ouvidos a voz da tua saudação, a criança estremeceu de alegria dentro em mim. Bem-aventurada a que creu, porque serão cumpridas as palavras que lhe foram ditas da parte do Senhor."
Evangelho de São Lucas 1:39-45
  
Depois de três meses com a prima, Maria voltou para Nazaré e casou-se com José. A desconfiança de seu noivo fora vencida, mas os desafios de Maria estavam só começando...

Aos nove meses de gravidez, um recenseamento obrigou José e Maria a se deslocarem-se para Belém, cidade natal do carpinteiro. 


(Os recenseamentos eram comuns no Império Romano, ocorrendo em qualquer época ou razão enquanto o Império vigorou no mundo por 503 anos e mais 1000 anos em Constantinopla. No entanto, os cidadãos conquistados não precisavam se deslocar à suas cidades natais. Os dados arqueológicos e históricos afirmam que esses recenseamentos eram apenas para saber quantos homens, aptos para guerra, haviam na região conquistada. Não sabemos, exatamente, porque Lucas faz uma referência sobre uma viagem de José e Maria à Belém, acredita-se que foi para não haver boatos sobre a real paternidade de José quanto a Jesus. Acima, cenas do filme Maria, a mãe de Jesus, de 2010.)

"Naqueles dias foi publicado um decreto de César Augusto, convocando toda a população do império para recensear-se. Este, o primeiro recenseamento, foi feito quando Quirino era governador da Síria.

"Todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade. 

"José também subiu da Galileia, da cidade de Nazaré, para a Judeia, à cidade de Davi, chamada Belém, por ser ele da casa e família de Davi, a fim de alistar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida. 

"Estando eles ali, aconteceu completarem-se-lhe os dias, e ela deu à luz o seu filho primogênito, enfaixou-o e o deitou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria."
Evangelho de São Lucas 2:1-7


(O nascimento de Jesus. Acima, cenas do filme Maria, a mãe de Jesus, de 2010.)



Continua...



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