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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

O Mundo Mágico das Florestas - Parte 4

(Os nativos americanos, pois desde de 1924, os indígenas não podem ser denominados índios, já que essa palavra foi uma corruptela de Cristóvão Colombo pensando que havia chegado às Índias, adoram a música e o grupo mais famoso dentre eles é o Manantial, da tribo Apache. Este grupo já foi premiado com um Grammy em 2000. Acima, a canção Tatanka, de 2005.) 

Para a maioria dos povos indígenas, a música é a suprema expressão da espiritualidade...

É uma modalidade muito antiga e sempre usada de fala que abre o canal dos seres humanos com as divindades. 

Além da voz, usam-se também instrumentos musicais como trombetas, flautas, tambores e chocalhos. 

(Os índios brasileiros ainda não ganharam um Grammy, mas estão no caminho...! - Acima, Coral Guarani, da ilha de Parati, no Rio de Janeiro. É um lamento que diz: "Quero ser ouvido!", de 2011.)

Os guaranis, que têm especial apreço pelo canto místico, dispõem, ainda de um violão de cinco cordas. 

É na casa de rezas, dançando e cantando as palavras sagradas, que eles fortalecem o espírito para alcançar, um dia, a "terra sem males", lugar de fartura e liberdade que pode ser habitado, ainda em vida, por quem atingir a perfeição.

A Religião do índio é a sua vivência dia a dia na "casa de rezas". Eles não possuem nenhum tipo de livro. 

(Uma "casa de reza" guarani, sendo abençoada pelo pajé. Acima, cenas do documentário Ogunsu, com os índios Guarani-Kaiowá da aldeia Panambyzinho no Estado do Mato Grosso do Sul, de 2013.)

Para eles a Bíblia é algum tipo de desenho, pois a mente do homem branco é cheia de esquecimento. 

Eles guardam as palavras de seus antepassados dentro de si há muito tempo, e continuam passando aos seus filhos... É assim que, apesar de muito antigas, as palavras dos indígenas de todo mundo voltam a ser novas e, até, fazer moda.

(Quem não acha que esse tipo de música veio do céu?! - Sim... E, ainda achamos que é algo novo que chamamos de New Age, mas não é... O estilo céltico de vozes nubladas e místicas é antigo e usado pelos ictos irlandeses e ingleses, nativos daquelas ilhas. Surgido na Irlanda e Cornoalha, o estilo Irish Vocals, foi usado pelos druidas há milênios... Acima, a cantora que marcou uma geração com seu estilo irish vocal: Enya, é capaz de reeditar sua própria voz até 50 vezes fazendo uma "cama" de vozes em diáfono. Canção Anywhere Is, de 1995.)

(Mais ao norte, encontramos ninguém menos que outra "gramminizada", Loreena Mckennitt que ressuscitou a canção dos nativos escoceses, mesmo sendo canadense. Os escoceses eram os povos mais primitivos da Grande Ilha ou, atualmente, Grã-Bretanha. Acima, seu maravilhoso show na Espanha cantando The Mummers Dance, 2012.)

E, o homem branco, em algum momento, se permite aprender a elevar seus pensamentos; ver e conhecer coisas que estão longe, coisas que são antigas, mas falam tanto sobre nós mesmos. 

(E, aqui no Brasil, após nossos 500 anos de interação entre índios-africanos-portugueses-ingleses-alemães, forçosa ou não, criamos um dos estilos de música mais rico de timbre, batidas e tempos, tão difíceis de serem reproduzidos, que não existe melhor percussionista que o músico brasileiro; quer conferir? Leia a equipe técnica de qualquer álbum internacional e você vai encontrar um brasileiro ali...) 

E este estudo sobre a teologia indígena nos faz retornar a um tempo onírico, quando o homem enxergava a natureza como um lugar de sonhos e seres fantásticos; quem não bebe desse "sopro" acaba ficando com o pensamento curto e enfumaçado, como eles mesmos dizem:

"...quem não é olhado pelo xapiripë não sonha, só dorme como um machado no chão..."



Fim.:.




Referências Bibliográficas

O Rosto do Índio de Deus, de Bartolomeu Meliá e outros, ed. Vozes, 1989.

O Casamento entre o Céu e a Terra, de Leonardo Boff, ed. Salamandra, 2001.

A Arte dos Pajés - Impressões sobre o Universo Espiritual do Índio Xinguano, de Orlando Villas boas, ed. Globo, 2000.

Tuparis e Tarupás, de Betty Mindlin, ed. Brasiliense/Edusp, 1993.


sexta-feira, 2 de setembro de 2016

O Mundo Mágico das Florestas - Parte 3

(Êta, saudade das minhas férias em Macaúbas... Todas as nossas férias escolares eram passadas por aqui, Macaúbas-BA, quando tudo ali era só mato e lendas... A gente fugia dos rodamoinhos de vento, dos cavalo-do-cão e, claro, dos curupiras: Seres estranhos, invisíveis às vezes, apesar que meus coleguinhas e primos juravam de pé-junto que já tinham o visto... Um ser bizarro que te encontra e te perde na floresta! Acima, cenas de Eu Juro Que Vi: A Lenda do Curupira - Documentário distribuído pelo depto. História-UNESP para escolas públicas, de 2011.)

Na floresta, muitos são os perigos sobrenaturais...

Entre os cintas-larga de Rondônia, por exemplo, teme-se o Pavu, uma entidade que mata os incautos que encontra no mato. 

A antropóloga e professora Carmem Junqueira conta que o Pavu tem o dom de se transformar em algo atraente para o índio (pode ser um parente querido que já morreu ou uma caça). 

(O Pavu, tema do festeiro Edu Rossi, no desfile anual de Paratins, em Manaus, Amazonas.)

O índio que olhar para ele pega febre ou morre!

Por isso, os índios não costumam ir sozinhos para a mata:

"Muito menos à noite...!"
Carmem Junqueira

Segundo os kamayurá, um indígena que já morreu e não foi para o mundo dos mortos, também pode se tornar uma entidade maligna.

(O novo remake do Sítio do Pica-pau Amarelo, todo mundo é politicamente correto: Pedrinho respeita a Narizinho, a Emília não é tão peste, todo mundo é assustadoramente magro, e as guloseimas de tia Anastácia, ah..., perderam a graça... Mas, enfim, novos tempos, novas abordagens... Acima, a história do Saci, uma entidade que não é nem maligna nem boazinha, ela quer apenas "causar". O Saci é um exu-mirim, um elementar em transição, que ainda não decidiu exatamente se quer ajudar ou prejudicar a evolução humana. Na cultura africana, eles habitam as florestas e podem tanto ajudar como prejudicar o caçador. Cenas de O Sítio do Pica-Pau Amarelo, ep. O Saci, de 2009.)

Daí, quando morre um índio, os indígenas executam cuidadosos rituais para que a alma encontre, com segurança, a Aldeia Das Almas ou o "mundo superior na luz da divina providência".

Do nascimento à morte - e até depois dela - o índio brasileiro participa de diversos rituais. O primeiro, importantíssimo, é a adoção do nome. 

Em geral, é o xamã que dá o nome à criança, depois de o procurar, em transe, pelo mundo dos mortos. 

(Na teologia indígena americana, o nome é um Daimon ou Totem, é uma representação da força e dignidade de uma entidade, tão poderosa que anima a sua vida e te protegerá em qualquer circunstância. A priori, essa também seria a explicação para que em rituais de iniciação o nome do adepto seja mudado. O seu nome "chama" a entidade-força à ter vida em você mesmo! - Acima, cenas da animação Irmão Urso, de 2003.)

(Sobre isso, escreveu Philip Pullman, o qual fez uma pesquisa interessante dos mitos gregos e egípcios para compor seus personagens e história. Os livros são maravilhosos e instigantes; o filme, infelizmente, e por causa da crise americana da época, não embalou os outros capítulos da série... Acima, cenas do filme A Bússola de Ouro, de 2007.)

Assim, a criança que recebe esse "nome-alma" é, também, uma reencarnação desse ancestral. 

Os índios que se convertiam para o Cristianismo ficavam muito surpresos quando o padre, na cerimônia de batismo, perguntava o nome aos pais indígenas da criança, e , eles retrucavam:

"Então o senhor não sabe?!?"

Ao longo dos anos, na rotina cotidiana de uma tribo, outros ritos se sucedem, muitos deles relacionados à passagem de uma fase a outra da vida, como a reclusão que as meninas fazem na puberdade (mencionado na postagem anterior), a iniciação dos meninos no grupo dos homens, as cerimônias funerárias ou mesmo o Kuarup.

(Ritual do Kuarup em homenagem aos mortos, uma festa típica no Xingu, 2011.)

Realizado pelos povos do Xingu, o Kuarup pode ser compreendido como um ritual de despedida dos mortos.

Durante a festa, os mortos - representados por toras de madeira enfeitadas - são pranteados pela comunidade, mas também homenageados por cantos, danças e lutas. 

(A teologia judaica também mostra algo parecido: O rei devia possuir um formato parecido com o faraó, afinal, Moisés aprendeu como deveria ser uma monarquia: O rei era um tipo de guia espiritual, mas não possuía prerrogativas para receber palavras ou mandamentos diretos de Deus; isso era uma atribuição do Sumo-Sacerdote ou de algum profeta, elemento espiritual surgido entre o povo, contudo não reconhecido entre o clero. Acima, cenas do filme Rei Davi, de 1985, sobre a passagem de 2 Samuel 6:12-15.)

Nos ritos de passagem, bem como em cerimônias relacionadas ao plantio e à colheita, pode entrar em cena outra liderança religiosa: o "sacerdote", cuja função pode ser assumida também pelo pajé, de acordo com a tribo.

O Sacerdote é o tipo de especialista que domina o conhecimento esotérico do sagrado, mas não tem, necessariamente, contato direto com os espíritos, o que seria prerrogativa do pajé. 

Em vários grupos indígenas, é aquele que entoa os cantos sagrados.



Continua...



sábado, 6 de agosto de 2016

O Mundo Mágico das Florestas - Parte 2

(Conhecer e entender os espíritos da floresta sempre foi a necessidade de todos os povos antigos da humanidade. Acima, cenas do filme A Lenda, de 1985.) 

(Dentre os muitos remakes televisivos, a melhor versão do Sítio do Pica-Pau Amarelo é de 1978! Nosso maior e mais celebrado escritor Monteiro Lobato tentou refazer os passos da mística e lendas indígenas e escravas na sociedade brasileira. Aclamado mundialmente, nos deixou este maravilhoso legado de histórias infantis consumido pelo mundo todo. Adoro!)

Além das divindades criadoras, os relatos míticos falam da existência de um tempo em que animais, seres humanos e espíritos não se diferenciavam. 

Até que, devido a um evento catastrófico - muitas vezes ligado à desobediência de uma regra - ocorre uma ruptura: as divindades afastam-se do mundo, marcando o fim dos tempos místicos e o começo da humanidade. 

Restabelecer o contato com as divindades é a função principal do pajé.

Para os índios, a diferenciação entre homens e animais é apenas corporal. 

(Após uma extensa pesquisa antropológica pela equipe de produção do filme, James Cameron utilizou fragmentos de várias culturas indígenas primitivas conhecidas para compor a teologia e o comportamento dos habitantes do planeta Pandora, onde nos é apresentado o respeito e a interação pacífica entre os seres e seu ecossistema. Cameron disse: "Se houver vida inteligente em outros planetas, eles seguem uma regra única de teologia: O respeito à natureza...". Assim foi criado o roteiro de um filme que se tornou antológico na cinemateca mundial. Acima, cenas do filme Avatar, de James Cameron, de 2009.) 

O indígena não vê o animal como um pedaço de carne, mas como o membro de outra tribo que foi liberado pelo "mestre dos animais", ou xamã, para servir de comida aos seres humanos. 

Xamã é o termo que os antropólogos costumam usar como sinônimo para pajé, palavra da língua tupi hoje usada genericamente, embora cada grupo tenha sua nomenclatura específica para o homem - ou mulher, em alguns grupos - capaz de entrar em contato com os espíritos.

(O mistério após a última grande glaciação da Terra que ocorreu a 60 mil anos atrás ainda persiste: Como o ser humano sobreviveu? Como ocorreram as emigrações entre as massas continentais? Pesquisas mais atualizadas informam que o Estreito de Bering não foi a única alternativa... No entanto, a Arqueologia nos confirma isso: O homem das Américas surgiu na América do Norte, começou sua migração motivado pelo frio e escassez de alimento para o sul; dali passou para o México, Guatemala e Honduras; continuou sua decida até a Argentina onde se encontrou com outros povos emigrantes da Polinésia, houve uma convergência e associação. O Brasil foi a última fronteira indígena, por isso nossos índios são os mais primitivos desse grupo emigratório. Acima, um maravilhoso documentário sobre a Eras Glaciais da Terra, A História da Terra, produzido pelo canal britânico BBC e exibido pelo canal privado National Geografic, de 2011.)

O termo xamã surgiu no fim do século 19, quando antropólogos estudavam povos indígenas da Sibéria e estabeleceram possíveis relações desses com os nativos da América do Norte (a teoria é que teriam ocorrido correntes migratórias pelo Estreito de Bering.)

No idioma dos habitantes da Sibéria, xamã designava um especialista nas atividades da caça. 

(Edgar Rice Burroughs, criador dos personagens Tarzan e John Carter (adorooo!), deixou-nos em seus contos a necessidade de pensarmos o valor da humanidade em nosso mundo: dominar para construir, ou dominar para exigir? - Como era jornalista, Rice se preocupou durante toda a sua vida a entender para onde as ações comerciais do homem o levavam... Acima, cenas do trailer A Lenda de Tarzan, de 2016.)

Um "mestre espiritual" dos animais, cuja função era a de pedir permissão ao espírito "dono" da caça antes de abatê-la. 

A antropóloga Carmen Junqueira, da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB, também identificou o conceito de "dono" entre sociedades do Xingu, mas alerta: ele não tem nada de mercantilista. 

"Para os índios, tudo o que é importante tem dono. O dono não tem a posse, mas a responsabilidade de cuidar. Assim, existe o espírito da mandioca, do milho, dos animais..."
Carmen Junqueira, Dr.Antropologia. 

Em geral, o pajé é a única pessoa capaz de contatar esses espíritos. 

(Apesar da porca pesquisa feita para os indígenas brasileiros, a escritora teen Stephanie Meyers (tentou, né?!) falar sobre as lendas dos indígenas americanos, o que não deixa de ser um ato louvável... E, hoje, é assim que os índios americanos, realmente, disseminam sua cultura entre os mais jovens. Acima, cenas do filme Saga Crepúsculo: Eclipse, de 2010.)

Na verdade, são os próprios espíritos que contatam e escolhem o pajé. Não se pode elegê-lo, ele se manifesta em sonhos ou visões, dizem...

Em algumas sociedades, existem aqueles que aprendem o ofício da pajelança com outros pajés. 

Mas esses, ensinados pelo ser humano, são considerados "menores".

(Não importa a cultura ou o tempo na qual ela se desenvolveu, o homem só tinha um único objetivo: Entender e dominar a natureza ao seu redor. A conclusão que o homem chegou em seus 150 mil anos de caminhada foi: O domínio vem através de um espírito forte e íntegro (espiritualidade e misticismo); do conhecimento e entendimento dos processos envolvidos (investigação intelectual dos fatos); a obediência estrita dos seres inferiores por nós conquistados por contermos maior conhecimento que eles (seja espiritual ou intelectual); pois, fisicamente, o homem já sabia que não conseguiria conquistar nenhum dos reinos visíveis ou invisíveis que o cercava... Acima, cenas do filme Star Wars - O Despertar da Força, de 2015.)

É a comunicação com os espíritos - por meio de rituais que podem incluir cantos, danças e o uso do fumo - que confere poder de cura ao pajé. Afinal, seriam os próprios espíritos os causadores de boa parte das doenças, geralmente como consequência da transgressão de regras criadas por eles, como as ofertas rituais ou períodos de reclusão.

Em algumas sociedades faz-se a diferenciação da figura do pajé com a do ervatário ou raizeiro responsável por curar as doenças de origem material. E, em outras, ainda, pode existir o papel do feiticeiro, o conhecedor de venenos e magias para fazer o mal.

(Em todas as culturas sempre houve uma certeza: Existem espíritos ou consciências que permeiam tudo o que nos cerca... A essa consciência foi dada vários nomes: Fadas, elementais, espíritos da natureza... Esses seres cuidam e protegem a qualidade e o funcionamento do ecossistema. Os gregos chamavam essa consciência de Gaia ou Mãe Natureza, algo que é maior que qualquer conhecimento que o homem possa conseguir obter. O conto mais disseminado dessa vertente cultural é A Princesa Branca de Neve dos escritores e irmãos Grimm. Esta lenda nórdico-germânica deixa em sua dinâmica a atuação da mulher como regente da natureza, e a necessidade de haver amor e integração entre os seres para que tudo termine bem. Acima, cenas do filme Branca de Neve e o Caçador, de 2012.)

(Uma boa conferência sobre o tema, mas com um enfoque espírita. O palestrante Dr. Júlio Goelzer fala sobre esse assunto para o Centro Espírita de Florianópolis.)

Ou seja, dependendo do grupo indígena, o feiticeiro pode ser uma figura à parte ou uma função assumida também pelo pajé. 

Em alguns grupos a figura do pajé é ambígua. Pode curar ou lançar doenças. 

Entre os povos indígenas, existem espíritos que têm em si tanto o bem quanto o mal, e a vida religiosa incorpora essas duas forças, presentes desde a criação do mundo, na figura dos gêmeos dos mitos de origem.


(Toda teologia que trabalha com elementos da natureza não concebe em seu cerne a dicotomia filosófica do Bem e Mal; tudo e o todo, são a mesma energia. Cabe a cada pedinte ou oficiante ter sua própria ética na utilização desse poder. Mas, lógico, isso não acontecia e, sim, na história da humanidade, muita confusão e problemas se relacionaram disso, por pessoas não saberem usar nem os poderes da natureza e nem saberem lidar com sua sina e frustração... Acima, cenas da animação Valente, de 2012.)  

(E, hoje, como ocorre essa busca pelo misticismo indígena brasileiro? Acima, o documentário A Voz das Avós, de 2013.) 





Continua...


terça-feira, 12 de julho de 2016

O Mundo Mágico das Florestas - Parte 1

(Carmem Junqueira, professora há mais de 25 anos da disciplina de Antropologia, Fundadora da Pós-Graduação em Ciências Sociais da PUC-BA, querida e amada mestra de todos os alunos de História, Sociologia e Filosofia da UESB - Vitória da Conquista e autora do livro que é referência no estudo da vida indígena brasileira: Antropologia Indígena.)

Cai a noite no Alto Xingu...

Na aldeia Kamayurá, todos se recolhem às redes.

Exceto uma pessoa, a antropóloga Carmem Junqueira, nossa querida e estimada professora da disciplina de Antropologia dos Departamentos de História e Filosofia da UESB - Universidade Estadual do Sudoesta da Bahia, campus Vitória da Conquista. 

Ela padece de uma dor de ouvido lancinante...

Chama o pajé Tacumã e avisa que vai até o posto de saúde mais próximo. Ele tenta dissuadi-la, consciente dos perigos naturais e sobrenaturais que a floresta oferece. 

(Pajé Tacumã Kamayurá, uma celebridade de nossas aldeias indígenas, foi um dos mais procurados pajés-xamãs do Brasil. Falecido em 25 de agosto de 2014, deixou um legado de amor à natureza e a sua própria natureza indígena. Faleceu aos 83 anos.)

Nem mesmo ele ousaria enfrentar os espíritos soltos na escuridão!

Mas a antropóloga reúne suas últimas forças, pilhas para a lanterna e balas para seu revólver, disposta a encarar as duas horas de caminhada até o posto médico. 

Tacumã, num corajoso gesto de cavalheirismo, dispõe-se a acompanhar a cientista. Antes da partida, porém, tenta um último recurso para mantê-la na aldeia:

"Posso te curar?" - pergunta com respeito, pois sabe que a antropóloga não professava a fé indígena. 

Também por respeito ao pajé, a pesquisadora aceita o ritual.

(Acima, tribo Kayamurá, do Alto Xingu, uma zona terrestre que pertence ao Parque Indígena do Alto Xingu - Mato Grosso. Criado em 1961 pelo então presidente Jânio Quadros, abriga 14 etnias. Administrado pelos irmãos sertanistas Villas-Boas, é referência de estudos acadêmicos brasileiros e internacionais sobre nossa herança e carga genética da América do Sul. Acima, reportagem do programa Globo Natureza exibido em 2011, produzido pela Rede Globo, canal público.) 

Ele a deita na rede e repousa, suavemente, a mão sobre a parte do rosto que dói, enquanto solta baforadas do fumo nativo, o patum.

Professora Carmen, nos diverte, lembrando:

"Em menos de dez minutos, senti todo o lado do rosto adormecido, como que anestesiado, e a dor passou!"

Quando finalmente, a professora foi ao médico, ela descobriu que estava com uma inflamação grave no nervo Trigêmio, daquelas que se trata com doses cavalares de anti-inflamatórios e analgésicos. E, até hoje, ela não encontrou explicações científicas para o que lhe aconteceu.

Ela finaliza sua história:

"O pajé vive num mundo mágico...

"Ele prevê a chuva, faz benção para a roça, conversa com todos os animais e outras coisas que a gente não pode nem falar, nem ver, senão vão dizer que estamos inventando... Mas, eu sei que essas coisas, de um jeito misterioso, existem..." - Ela ri, e toda a sala ri junto!

Figura fundamental na relação do indígena com o sagrado, o pajé começa a assumir novo papel: o de porta-voz das tradições religiosas e culturais.

(Pela primeira vez, acompanhando a onda de "aceitação pluri-social" dos americanos, o Brasil oficializa a religião e cultura indígena como uma vertente filosófica válida e que deve ser respeitada sob pena de prisão inafiançável. Acima, programa educacional do canal público TV Cultura, exibido em 2012.) 

No II Encontro Nacional dos Pajés, que deverá ocorrer em outubro deste ano, na Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso, eles defenderão o diálogo dos saberes tradicionais com a ciência e a "oficialização" da religião indígena.

O Cacique Santixiê Tapuya, um dos organizadores do evento, explica que, mais do que um reconhecimento formal ou burocrático, o que os índios querem, mesmo, é o respeito dos brancos para com os valores espirituais dos primeiros habitantes do país. 

Atualmente, e já há algum tempo, a cultura indígena brasileira, acompanha uma onda mundial, que busca a visibilidade na sociedade moderna. 

Conhecer a diversidade de conceitos e práticas espirituais de cerca de 230 povos não é uma tarefa simples!

A própria palavra "religião" é inadequada para descrever a espiritualidade que foge dos formalismos e das estruturas de poder. 

Na base da teologia indígena, cada índio - criança, jovem ou adulto - tem sua força espiritual. Cada um tem livre determinação e capacidade de se relacionar com o seu Criador.

(Hoje, existem vários departamentos de História de Universidades estaduais e federais que disponibilizam para as escolas públicas do Brasil um ciclo educacional sobre as lendas e mitos indígenas brasileiros. Acima, ciclo da Tribo Bororo, realizado pela equipe de Áudio-Visual e turma de Jornalismo e História da USP, de 2014, televisionado pela TV Cultura.)

O indígena reconhece o sagrado na natureza.

O melhor meio para se falar de uma fé indígena, assim no singular, é buscando o que há de comum entre as diversas crenças e rituais. E, certamente, a estreita ligação com a natureza é o fio condutor que nos leva diretamente aos mitos da criação, presentes em diversos grupos. 

O aparecimento do Sol e das Estrelas, das plantas, dos animais e alimentos é explicado pela ação de diversas divindades. Embora, em algumas culturas exista a figura de um herói criador, ele não tem o mesmo "peso" do Deus cristão. 

Para o índio não existe a noção de um Deus supremo. 

E, há, também, em vários grupos indígenas, a chamada mitologia dos gêmeos (em alguns povos, substituídos por pai e filho) que representam as forças da criação e destruição. Enquanto um cria, o outro destrói e, assim, equilibram a ordem do mundo.


(Tupã é a força primária, o raio que gerou o Mundo a serviço de Lamandu, o Deus Criador.) 

(Trabalho "A Sociedade Indígena", da turma de História-2009, realizado pelos graduados: Tavinho Fonseca, Sara Cristine, Camile Almeida e Vanderson Lupe. Acima, canção Tupã dos Homens às Flautas.)

Para quem já está se perguntando por onde anda Tupã, nome que a gente aprende ainda na escola vale uma correção histórica:

Tupã não é o "Deus dos Índios" como a cultura leiga (e branca) impôs. 

Os colonizadores adaptaram o termo que os tupi-guaranis usavam para o trovão e disseram que eles adoravam Tupã (a força das tempestades, constantes, na época, por todo Brasil).


Continua...



Aranel Ithil Dior. Tecnologia do Blogger.

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